Entre fantasmas do passado e ruínas do presente, o cinema de Kleber Mendonça devolve ao espectador aquilo que não pôde ser lembrado
Por Ana Lucia Gondim Bastos
Desde Retratos Fantasmas, documentário de 2023, tive vontade de escrever sobre o aspecto de suspense sobrenatural na obra do talentoso Kleber Mendonça Filho, sem dúvida um dos meus cineastas preferidos da atualidade. Os vestígios do passado recusado/esquecido/negado que nos assombram, apagamentos que deixam restos que são percebidos, mas, devido aos apagamentos, mal decodificados ou com contornos pouco localizáveis, fazem com que o terror esteja sempre subjacente aos roteiros, ainda que não necessariamente se trate de um filme de terror. É como se o diretor nos devolvesse o que não pode ser lembrado, repetido para, então, encontrar via de elaboração, como propunha Freud em 1914, em tantas das nossas histórias coletivas. O que, incontornavelmente, trará ecos de desaparecidos nas construções de nossas histórias pessoais.
presente
O que eu guardo a sete selos?
Nenhuma conspiração sequer pornografia
passado, filha
Conhecê-lo pode
custar o futuro
Reiner Kunze
Em O Agente Secreto (2025), tudo isso se revela de maneira muito peculiar e encantadoramente assustadora, como o gatinho com duas caras que espera o protagonista ,em atuação brilhante de Wagner Moura, em seu lar provisório de volta a Recife, sua cidade natal. A abertura, com fotos emblemáticas em preto e branco de grandes referências culturais dos meados da década de 70, nos transporta para o lado da resistência criativa, alegre e festiva aos anos de chumbo. Aliás, a história já começa em pleno carnaval recifense de 1977, com os personagens tendo que lidar com as situações mais duras, sempre com fantasiados e mascarados passando, esguichos de água, além de talco e confetes em profusão nas ruas tomadas pelos brincantes.
Enquanto os jornais anunciavam a contabilidade das mortes causadas pelos excessos no carnaval, tempos de pirraça , cenas do cotidiano truculento da polícia e dos desmandos dos poderosos vão contando de onde vem a bala e quais são os alvos nada aleatórios. No processo no qual vamos tentando entender a história do protagonista e seus mistérios ou pontas soltas, Kleber Mendonça coloca cenas que poderiam ter acontecido lá, em meio à ditadura militar — momento de muitos desmentidos, de muito sofrimento deslegitimado, negado ou desapercebido — mas que, imediatamente, nos catapultam para anos da segunda década dos anos 2000.
Por exemplo, como quando traz a cena da polícia e da imprensa preocupadíssimas em inocentar a patroa que deixou a filha da empregada morrer atropelada enquanto a mãe trabalhava. Impossível não nos remeter diretamente ao caso Miguel*, tragédia que marcou a história de Recife (e de todo o Brasil) e escancarou o descaso das elites com a vida de pessoas que só podem ser vistas como subalternas. Outra catapulta para o presente de nossa história é o personagem poderoso que sai à caça de quem o contrariou, com seu limitado filho defensor acrítico das arbitrariedades autoritárias paternas — isso sem contar os episódios que revelam o ódio manifestado à ciência, principalmente àquela que pode gerar lucro e está nas universidades públicas, com nordestinos à frente… e por aí vai, num sem-fim de referências que nos mostram que não estamos tão longe de lá, e muito por causa dos esquecimentos que interessam aos que preferem imaginar o fim do mundo a imaginar o fim do capitalismo, como apresenta Mark Fisher em seu Realismo Capitalista (2009).
A impossibilidade de imaginar novos futuros, esse impasse cultural, político e subjetivo em que nos encontramos, é retratada pelo diretor, mais uma vez, nesse filme, como produzida pela modernização destrutiva dos espaços urbanos, com restrições ou apagamentos de seus lugares potencializadores do sonhar, em experiências coletivas como é o cinema. Esses “avanços do progresso”, que tentam soterrar a capacidade de sonhar para que possamos viver uma repetição sem fim — ou melhor, uma repetição esperando o fim inevitável do esgotamento planetário e/ou social (o colapso que vier primeiro) —, têm contrapontos na obra de Kleber justamente quando as assombrações nos surpreendem e fazem rir de tão bizarras ou surreais.
Representações que acionam outras instâncias de nossa subjetividade que não as racionalizáveis: o tubarão, que causou estremecimentos de medo nas salas de cinema em 77, se mistura aos tubarões que passaram a circular mais próximos da costa urbana de Recife pelos desequilíbrios ecológicos causados pelas intervenções humanas no ambiente, e ao “Perna Cabeluda”, que é uma lenda urbana recifense, figura folclórica, cômica, assustadora e grotesca que, no filme, se relaciona com corpos desovados no mar para que desapareçam e que voltam no medo ou numa presença dos ausentes.
O presente, no entanto, não aparece no filme apenas nas referências rapidamente captadas por bom entendedor, para quem meia palavra basta. Também em cenas passadas nos dias de hoje, que trazem uma dupla de estudantes sudestinas transcrevendo fitas que contam a história do acadêmico Armando/clandestino Marcelo. Inicialmente, as duas se mostram muito interessadas num trabalho meticuloso de escuta de entrevistas gravadas em fitas cassete. Aos poucos, esse resgate de memória vai desinteressando. Uma pesquisadora desinveste de vez, mas a outra segue buscando o fio da meada; ela pensa que talvez isso aconteça por ter um avô pernambucano.
O filme, contudo, traz outros aspectos que merecem atenção, além da ancestralidade nordestina e da dedicação à carreira de pesquisadora: a condição de jovem mãe de um bebê, a de mulher negra e a de casada com um homem, ele também negro, que fica com o bebê para possibilitar que ela vá dar o sangue por essa história que a levará à cidade-cenário das narrativas que escutara na infância. Uma pessoa cujas condições talvez não a tenham impedido de entender a importância, para seu futuro, da revelação dessa história também a quem, mais do que ninguém, a tem como herança, mesmo sabendo pouco sobre tudo que traz na bagagem… E, então, esses dois personagens do nosso tempo presente se encontrarão em Recife, os dois passando a se entender como produtos dessa história que vai se reconstruindo, aos poucos, e neles. Tudo ali, onde um dia foi um cinema… Muito lindo!
Portanto, o filme não é só sobre medos, sombras e chuvas. Da mesma forma que não é só no ontem, no hoje ou no amanhã, é também sobre solidariedade, confiança e toda forma de amar, em vários momentos e contextos em que o encontro humano pode acontecer.
*https://revistaboletim.emnuvens.com.br/revista/article/view/26/25
artigo publicado na Revista Boletim do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae v. 29 “Sobre o caso Miguel, as trabalhadoras “quase da família” e as responsabilizaçõesmútuas na luta antirracista” Autoras: Adriana Domingues; Ana Lucia Bastos e Jaquelina Imbrizi
