Filme – Foi Apenas um Acidente

Por Ana Lucia Gondim Bastos

Da mesma boa safra de filmes lançados em 2025, a mesma que levou às telonas do mundo inteiro O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, obra que convoca parte de nossa história apagada, distorcida e esquecida, e que por isso retorna em ecos que nos assombram e ameaçam, chegou também Foi Apenas um Acidente, de Jafar Panahi. O cineasta iraniano parte de suas próprias experiências de cárcere, impostas pelo regime de seu país como punição por denunciar as violências de um Estado autoritário. As filmagens foram realizadas com equipe enxuta e de modo a escapar da vigilância policial.

Nesse sentido, O Agente Secreto e Foi Apenas um Acidente fazem o cinema cumprir um papel social de extrema importância: trazer à tona aquilo que não pode ser dito ou recordado, em razão de pactos sociais tácitos que mantêm o estado das coisas e cronificam relações de poder. Por isso, devo admitir certo incômodo quando Foi Apenas um Acidente é tratado como principal concorrente de O Agente Secreto na indicação de ambos à já estranha categoria de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar. Entendo que, na prática, apenas um levará a estatueta e ganhará ainda mais visibilidade mundial, mas, muito mais do que concorrentes na disputa por um prêmio, esses filmes concorrem no sentido de uma grata simultaneidade de denúncias das violências de Estado que se perpetuam, inclusive por uma ordem mundial cujo eixo estruturante passa pelo imperialismo estadunidense ( o que faz com que todo cinema que não venha de lá seja considerado “estrangeiro”, diga-se de passagem).

Diferentemente de O Agente Secreto, Foi Apenas um Acidente traz à tona o passado adormecido ou silenciado não por meio de documentos, de suas lacunas ou de seus ecos nas novas gerações, mas a partir de um encontro casual entre dois personagens. Um deles, numa noite chuvosa, precisa pedir ajuda para consertar o carro e seguir viagem. As primeiras cenas se passam dentro do automóvel em que viajam um homem, sua esposa grávida e a filha criança, cujas conversas já introduzem questões sobre a quem pode incomodar a alegria da música, sobre culpa e responsabilidade, tudo num tom doméstico e aparentemente banal.

Por acidente se atropela um cachorro; por acidente o carro enguiça numa noite sem muitas alternativas de socorro; por acidente encontra-se um lugar para um reparo paliativo, onde um novo encontro acidental se tornará o fio condutor de todo o roteiro. Um homem aparentemente comum é tomado por um incômodo profundamente desorganizante ao observar, de longe, aquele que vem buscar ajuda em seu local de trabalho. O mecânico, que se esquiva do encontro num primeiro momento, parece atravessado por ódio e desejo de vingança transbordantes.

Pouco a pouco, torna-se claro que o mecânico fora um prisioneiro político, torturado possivelmente por aquele homem que agora pede socorro. A única pista que o leva a crer estar frente a frente com seu algoz é o som do andar, que denuncia o uso de uma prótese em uma das pernas. Única pista, já que durante toda a prisão ele fora torturado vendado. A dúvida o paralisa no momento da efetivação da vingança: por tantas vidas perdidas, por sequelas devastadoras e pela dor desmedida de se reconhecer, após a experiência da tortura, como um ser humano capaz de ódio tão profundo a ponto de poder matar outro com os mesmos requintes de violência de que foi vítima.

Do ponto de vista psicanalítico, se a identidade se constitui como ilusão, trata-se, ainda assim, de uma ilusão necessária à organização psíquica. E é inerente aos horrores da experiência da tortura o estilhaçamento de muitos dos ancoradouros do que acreditamos ser e do que acreditamos poder fazer no mundo compartilhado. Tudo aquilo que sustentava a história de vida do sujeito é violentamente atacado, sobretudo porque, ali, ele é destituído de sua humanidade ao ser objetificado por outro.

Passada a experiência traumática do cárcere sob tortura, suas marcas persistem, ainda que o sujeito retorne ao cotidiano do qual foi arrancado ou mesmo a outro que o afaste das antigas referências. Marcas muitas vezes silenciadas, com pouca ou nenhuma elaboração simbólica possível. Até que, acidentalmente, irrompa uma nova situação que faça emergir toda a dor e os monstros adormecidos que nunca deixaram de respirar nas águas turvas do psiquismo. É então que a crueldade — aquela que o pacto civilizatório nos faz crer controlada ou inexistente em cada um de nós — passa a assombrar e ameaçar de destruição tudo o que sustenta nossa organização psíquica e social.

O filme de Panahi encanta por sua surpreendente aposta nos encontros acidentais e por sua crença na potência da troca e do compartilhamento de experiências como via de restauração da confiança no pertencimento a um mundo no qual a vida humana possa acontecer e se representar. Tudo começa com a busca por outros que possam legitimar a vingança, assegurando que aquele homem seria de fato o torturador. Pessoas que, por caminhos diversos, passaram pelo cárcere sob tortura e, também por caminhos diversos, afastaram-se desse lugar factual e simbólico.

Esses personagens se reúnem numa van e passam a transportar o corpo vendado e amarrado do possível torturador. No percurso, a van se desloca e recebe novos passageiros, que compartilham dores, projetos abortados, projetos que puderam nascer, desejos que se reorganizam a partir da experiência comum da tortura. O corpo agora inerte daquele homem, incapaz de arrastar a prótese que povoa os piores pesadelos do grupo, acompanha esse trajeto.

Nesse caminho, a humanidade de todos vai sendo reafirmada pelo simples fato de haver quem escute o que estava silenciado. Os personagens deixam de ser apenas corpos como lugar de inscrição do trauma e passam a adquirir densidade psíquica, histórias singulares, contradições. Também o corpo do torturador, exposto em sua vulnerabilidade, vai sendo desobjetificado ao apresentar necessidades que o grupo não consegue simplesmente ignorar, assim como sua própria história: a esposa prestes a dar à luz, a filha desesperada diante da ausência do pai.

As cenas marcadas por tamanha ambivalência, de um grupo inicialmente unido apenas pelo trauma e pela necessidade de legitimar a vingança, revelam-se profundamente humanas e comoventes. O espectador oscila entre o choro e o riso tenso, tocado pela potência afetiva dessas situações-limite. Panahi mostra que seus ideais de liberdade e esperança não são facilmente destruídos e nos convida, por meio do cinema, a não perdermos a ternura jamais, como já nos ensinou Che.

O desfecho, duro e perturbador, não oferece alívio nem fechamento. Ele mantém o ferimento aberto e desloca o espectador do conforto moral, obrigando-o a sair do cinema carregando o desconforto e a indignação. Não se trata, porém, de produzir uma sede assassina, mas de sustentar a inquietação ética diante da violência, recusando tanto a vingança quanto o esquecimento como soluções possíveis.

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