Tecendo a Trama

Espaço pra contar histórias e dividir impressões sobre o lido, assistido, inventado, experienciado, cantado ou ouvido. Tecendo a trama do cotidiano.

Crônica – Baú de Histórias

Baú de histórias

Para Mariana Garcez, para quem e por quem tanta história foi contada

(Por  Ana Lucia Gondim Bastos)

 De um baú pintado a mão, lá pelos lados do oriente, saem histórias e poemas sempre que preciso oferecer um contorno mais preciso para um sentimento ou experiência vivida. Uma das minha preferidas intitula-se “Dona Saudade”, de Claudia Pessoa. O livro de capa azul, da cor do meu baú, conta a história de Fernando, que depois de muito correr e se assombrar com a danada da Dona Saudade, abriu o coração, deixou-a entrar e descobriu que, quando acolhida, Saudade fica levinha como nuvem sem chuva.

Mas, sei bem que lidar com saudade não é coisa fácil! Ela é incômoda e desastrada, sempre que a gente deixa ela entrar, ela esbarra em tudo que está pelo caminho e, muitas vezes, deixa um tanto de coisa quebrada dentro da gente! E, olha que dá um trabalhão recolher os cacos que ficaram espalhados, para dar novos contornos pra eles. Mas, a vida de quem gosta de se relacionar, de trocar afeto e  de ver o outro crescer, ganhar asas e voar, é vida de quem “topa” conviver com dona Saudade. Vida sem saudade, é vida solitária, vida sem laço ou abraço. Mario Quintana fala bem disso (aliás, ele fala bem de tudo quanto há nessa vida!):

O LAÇO E O ABRAÇO

Meu Deus! Como é engraçado!
Eu nunca tinha reparado como é curioso um laço… uma fita dando voltas.
Enrosca-se, mas não se embola, vira, revira, circula e pronto: está dado o laço.
É assim que é o abraço: coração com coração, tudo isso cercado de braço.

É assim que é o laço: um abraço no presente, no cabelo,
no vestido, em qualquer coisa onde o faço.
E quando puxo uma ponta, o que é que acontece? Vai escorregando…
devagarzinho, desmancha, desfaz o abraço.

Solta o presente, o cabelo, fica solto no vestido.
E, na fita, que curioso, não faltou nem um pedaço.
Ah! Então, é assim o amor, a amizade.
Tudo que é sentimento. Como um pedaço de fita.

Enrosca, segura um pouquinho, mas pode se desfazer a qualquer hora,
deixando livre as duas bandas do laço.
Por isso é que se diz: laço afetivo, laço de amizade.
E quando alguém briga, então se diz: romperam-se os laços.

E saem as duas partes, igual meus pedaços de fita, sem perder nenhum pedaço.
Então o amor e a amizade são isso…
Não prendem, não escravizam, não apertam, não sufocam.
Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço!”

Então, amar é, também, deixar ir e permitir a volta. É gostar de ouvir as histórias dos outros e não achar que tem um jeito só de contar uma história. É, também, gostar de contar do nosso jeito de escrever história, e ficar feliz quando o outro se interessa, porque, no fundo, somos tramas e urdiduras de um mesmo tecido. Tecido formado de idas e vindas, de encontros, desencontros e reencontros, de saudade e de reparação.

Todos os papéis que escolhi exercer na vida (tanto quanto a forma através da qual escolhi exercer), me fazem, de modo particularmente intenso,  lidar com encontros e despedidas. Saudade, assim, se tornou minha grande companheira. Da mesma forma que Fernando (personagem de Claudia Pessoa), aprendi a acolhe-la e até a convoca-la, em algumas situações. Seu jeito desastrado, às vezes, chega a me divertir e sabendo que ela carrega todo mundo a tira colo e me preenche com tantas histórias que compartilhei com toda aquela gente, fica mais fácil acompanhar com olhar atento cada um que alça voo até que eu o perca de vista no horizonte distante.

Saudade, inclusive, hoje me instrumentaliza a manter a janela aberta para cada um que resolva voltar para descansar as asas, fortalece-las, ou mesmo, só para contar as histórias das terras por onde passou. E é assim que eu levo a vida, e é assim que dou sentido à ela: com a convicção de que o baú de histórias estará sempre com o espaço ampliado a cada nova contribuição!

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Publicado em 21 de maio de 2015 por .
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