Tecendo a Trama

Espaço pra contar histórias e dividir impressões sobre o lido, assistido, inventado, experienciado, cantado ou ouvido. Tecendo a trama do cotidiano.

Filme – No Limite do Amanhã

Por Ana Lucia Gondim Bastos

Faz parte da condição humana a consciência de que teremos um amanhã como limite e de que viver é, inclusive, ter que dar conta dessa inevitabilidade. Não sabemos quando será, nem como será e essa indefinição nos deixa, por um lado, ainda mais vulneráveis, mas, por outro, podendo viver considerando que sempre teremos tempo pela frente. Ou seja, nos sabemos mortais, mas, ainda assim, fazemos planos e projetos como se não houvesse esse amanhã, limite para tudo. É um malabarismo necessário: a consciência das nossas limitações e a abertura para sonhar com futuros e para as experiências no mundo, sem deixar que tal consciência nos oprima a ponto de engessar tais possibilidades de sonho e de experiências. E já que a vida é esse incansável adiamento da morte, não podemos considerar ilegítima nossa, também incansável, busca por extrapolar os limites impostos, nesse caminho.

O crescente desenvolvimento tecnológico e seus recursos mágicos, já nos permitem desafiar muitas leis da física e ter experiências, há pouco tempo, tidas como impossíveis a reles mortais. Contudo, poder estar interagindo em lugares diferentes ao mesmo tempo ou com pessoas que estejam geograficamente muito distantes, tanto pode ser um recurso interessante de ampliação das nossas possibilidades de interação e comunicação com o mundo, como pode atiçar nossa onipotência aplacando a dor de nos sabermos limitados, o que nos enfraquece, por nos deixar reféns da ilusória capa da fortaleza de quem tudo pode. Esta última vai nos deixando cada vez mais dependentes dos recursos que nos geram a saudosa sensação do narcisismo inabalável e vai nos afastando do mundo, ao invés de nos aproximar dele.

E o que falar dos games? Com eles podemos virar qualquer personagem, inventar características para nosso(s) avatar(es) e viver uma, duas ou várias vidas paralelas. De cara penso que poderia ser uma ampliação do mundo do faz de conta, das possibilidades de se projetar em outras realidades  e de contar novas histórias. Agora, então, que se pode jogar com pessoas de diversas partes do mundo, como se todos estivessem ao redor de um mesmo tabuleiro, mais legal ainda! Incrível alternativa para buscar novas estratégias e formas de enfrentar os desafios que o jogo oferece. Contudo, não podemos deixar de notar o alarmante uso dos games como mais um recurso de descarga rápida de energia, sem grandes elaborações acerca do que se está fazendo ou produzindo (no mundo interno ou externo) com as ações que tomam conta, às vezes, de várias horas do dia. Muito comum entre os adolescentes, mas não exclusividade deles, é a necessidade de voltar a jogar, colocando tal atividade como prioridade na vida. Em alguns casos, todas as outras atividades passam a ser encaradas como obrigações a serem cumpridas para, finalmente, se poder voltar a jogar. De frente para uma tela de computador, com movimentos repetitivos de dedos, uma pessoa pode passar dias e/ou madrugadas atirando em inimigos, caçando tesouros e acumulando pontos para ser mais poderoso na próxima jogada.

O filme “No Limite do Amanhã”(Doug Liman, 2014), traz para as telona uma vivencia que pode ser reveladora de um aspecto importante da atratividade, quase hipnótica, dos games. No filme de ficção científica, cujo cenário é a Terra durante um ataque alienígena que ameaça a humanidade, o Major William Cage (personagem de Tom Cruise) fica num loop temporal, condenado a voltar inúmeras vezes para o dia anterior ao de sua sua morte. Contudo, as repetições vão fazendo com que possa se preparar, cada vez melhor, para a batalha do dia seguinte, já que tem o poder de saber como será esse futuro (seu amanhã limite). É como num game no qual o jogador tem várias vidas e que vai se aperfeiçoando até que possa mudar de fase e, então, mudar a “realidade” da tela. Se algo deu errado ou se não foi astuto o suficiente para evitar algo desagradável, basta “deixar-se” morrer para que na nova vida se tenha chance corrigir o erro, numa repetição de quadro.

Na vida fora dos games, no entanto, espaço no qual nosso corpo físico está em jogo (ou no jogo) e, por isso mesmo, estamos envolvidos “até o último fio de cabelo”, é preciso reconhecer erros e deslizes de outra forma. Precisamos ser capazes de reparar nossos erros e deslizes, buscar caminhos a partir dali, já que não dá para zerar o jogo e repetir o quadro. É preciso seguir daquele ponto, buscando novas telas ou cenários, contando com o que já foi como experiência e nunca como repetição, sem possibilidade de editar a história ou mudar de avatar! E disso só conseguimos dar conta num outro tipo de interação, tanto com o outro, quanto com a nossa própria narrativa.  Penso, que há algo de mórbido nessa repetição, que se configura numa narrativa que não flui.

No-limite

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Publicado em 27 de maio de 2015 por .
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