Tecendo a Trama

Espaço pra contar histórias e dividir impressões sobre o lido, assistido, inventado, experienciado, cantado ou ouvido. Tecendo a trama do cotidiano.

Filme – Dor e Glória

Por Ana Lucia Gondim Bastos

“O regresso ao começo não é uma círculo vicioso se a viagem, como hoje a palavra trip indica, significa experiência de onde se volta mudado. Então, talvez tenhamos podido aprende a aprender aprendendo. Então o círculo poderá ter se tornado uma espiral, onde o regresso ao começo é precisamente o que o afasta do começo” O Método, Edgar Morin

Recentemente, um dos maiores pensadores contemporâneos vivo, o filósofo francês, Edgar Morin, voltou ao Brasil*, aos 97 anos, para nos falar acerca da qualidade poética da vida. E poético foi esse retorno dele ao Brasil, depois de tantos anos e com tantos anos de vida, depois de tantas voltas em sua espiral, descobertas e traçados de caminhos. Poético foi estar novamente na plateia ouvindo-o falar como a arte nos encoraja frente ao nosso destino. Na mesma semana, aconteceu o lançamento nacional do último filme de Pedro Almodóvar, Dor e Glória (2019). Nele, poeticamente, somos convidados a dar uma volta completa na espiral de experiências do diretor, na chegada à velhice. Momento de dores e glória já estabelecidas, marcando o corpo e a história, numa cartografia (re)conhecida. O ator escolhido para protagonizar esse roteiro, tão marcadamente autobiográfico, não podia ser outro senão Antonio Bandeiras, ator de tantos filmes de Almodóvar e com quem a intimidade fica evidenciada, nesse trabalho, realizado 37 anos depois do primeiro (Labirinto de Paixões, 1982). Banderas, nessa nova empreitada almovariana, é Salvador Mallo, um diretor de cinema cujas dores e os ecos da glória são o que o lembram que segue vivo. Contudo, reside, justamente, naquilo que nos lembra que a vida segue, o potencial de mudança de rota, da vida. Pois, enquanto a vida não cessa, a capacidade de nos surpreendermos e de sermos obrigados a fazer novas escolhas, também não cessa. Para Salvador, dos ecos da glória veio a necessidade de voltar a um filme realizado há trinta anos, resgatar relações desgastadas no passado, reavaliar posições e opiniões. Das dores no corpo e na alma, veio a necessidade dos analgésicos e, a inevitabilidade, dos passeios pelas lembranças do passado. Desse coquetel, vieram as surpresas que fazem do roteiro não um círculo vicioso, mas, a espiral, citado por Morin, onde o regresso ao começo é precisamente o que o afasta do começo. Um filme delicado e corajoso, esteticamente encantador. Daquelas obras que nos fazem, não só ter coragem, mas ter vontade de enfrentar nosso destino. Daquela obras que nos fazem confiar nas mãos do senhor dos destinos, e nos colocar em Oração ao Tempo (para terminar com o talento de outro amigo, outro feliz encontro que Almodóvar teve na vida)

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo, tempo, tempo, tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo, tempo, tempo, tempo

Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo, tempo, tempo, tempo
Entro num acordo contigo
Tempo, tempo, tempo, tempo

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo, tempo, tempo, tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo, tempo, tempo, tempo

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo, tempo, tempo, tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo, tempo, tempo, tempo

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo, tempo, tempo, tempo
Quando o tempo for propício
Tempo, tempo, tempo, tempo

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo, tempo, tempo, tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo, tempo, tempo, tempo

O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo, tempo, tempo, tempo

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Não serei nem terás sido
Tempo, tempo, tempo, tempo

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo, tempo, tempo, tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo, tempo, tempo, tempo

Portanto, peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo, tempo, tempo, tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo, tempo, tempo, tempo

Caetano Veloso

*Conferência Arte e Estética (18/06/2019) / SESC Pinheiros, São Paulo

Um comentário em “Filme – Dor e Glória

  1. Irene Grether
    25 de junho de 2019

    Maravilha a sua análise, Aba Lúcia. Como sempre, delicada e inspirada. Esse filme é realmente uma viagem que nos convida à nossa propria travessia. Que seja a espiral de Morin

    Curtir

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Informação

Publicado em 24 de junho de 2019 por .
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