Por Ana Lucia Gondim Bastos
É do cineasta italiano Federico Fellini (1920-1993), cujo nome foi adjetivado para designar situações fellinianas, aquelas que se aproximam da realidade onírica, a frase: “Todo filme é autobiográfico; a pérola é a autobiografia da ostra”.
Como psicanalista, também posso afirmar, juntamente com meus pares, que toda autobiografia é uma ficção sobre a própria história. Cacos de memória, interpretações, narrativas familiares e múltiplas fantasias são montados em um roteiro que faz de toda vida humana matéria digna de uma película. Algo que cineastas como Eduardo Coutinho souberam nos mostrar tão bem ao longo de sua obra.
Nas últimas décadas, muito se tem valorizado a autoficção como gênero literário. Em Natal Amargo, último filme de Almodóvar, parece haver uma brincadeira com essa ideia de um gênero que aparenta ser recente, mas cuja presença muitos já suspeitavam existir desde sempre, em toda obra artística, qualquer que seja sua linguagem.
O próprio Almodóvar possui clássicos em sua filmografia com personagens mais evidentemente ligados à sua experiência de vida. Má Educação (2004) e Dor e Glória (2019) são bons exemplos. Mas, independentemente da língua falada por seus personagens, ele sempre esteve lá, e nós sabíamos disso. Agora, ele explicita essa presença e faz do novo roteiro uma espécie de jogo entre histórias, narradores e personagens. Quem fala de quem? Quem cria quem? Quais são as fontes de inspiração?
A última cena, sem spoilers, diz muito sobre todo o restante. Quem escreve um roteiro está sempre apertando três vezes a tecla delete toda vez que a palavra “fim” é digitada.
É assim na vida e na arte. Nossos dedos seguem infinitamente digitando palavras que se unem em frases, montam contextos e escolhem ações, até que a morte venha colocar, enfim, um fim definitivo.
Novos personagens aparecem. Nada tão original. Tudo tão igual e, ao mesmo tempo, tão diferente. Sim, algumas repetições. Às vezes muitas. Mas sempre algo se desloca. Outras coisas se condensam. Há textos bons, com desfechos surpreendentes, que nos levam a grandes discussões ou favorecem a imaginação radical de outros mundos e outras formas de viver. Há também textos nem tão bons, tampouco com finais surpreendentes, mas que mantêm os roteiros sendo escritos. Mantêm os movimentos que, se cessarem, fazem a vida parar junto.
Se me perguntam se gostei do filme, preciso responder com honestidade: nem tanto. Mas foi ele que me fez ter vontade de voltar a escrever.
Sigamos.
Obrigada por mais essa, mestre.
E termino com outra frase daquele que inspirou o início deste texto:
“Não há nenhum fim. Não há nenhum começo. Há somente a paixão da vida.” Federico Fellini
