Tecendo a Trama

Espaço pra contar histórias e dividir impressões sobre o lido, assistido, inventado, experienciado, cantado ou ouvido. Tecendo a trama do cotidiano.

Filme – Ana e os Lobos: sobre o limite do nosso poder transformador

Por Ana Lucia Gondim Bastos

Mais em uns casos do que nos outros, contudo de forma nenhuma incomum, é a vontade de transformar o outro, vontade de abrir espaço para mudar um jeito de pensar, um ponto de vista ou uma forma de se relacionar do outro com o mundo,  que consideremos pouco produtiva ou danosa para o contexto individual ou coletivo. À vezes é uma vontade  fruto de genuína preocupação com o outro e/ou com o mundo que compartilhamos com ele, às vezes, não. Muitas vezes vem de uma reflexão crítica e de um mapeamento histórico sobre os porquês daquela conformação de pensamento e atitude, outras vezes, não. Muitas vezes, ainda, tais tentativas, geram embates, de fato, transformadores para ambos os lados. Contudo, também muitas vezes, geram intolerância e destruição. A grande diferença nos resultados das empreitadas por abrir novas janelas para o outro, não reside apenas, ou principalmente, na intencionalidade ou forma como tais tentativas acontecem. Reside, muito mais, na medida da disponibilidade desse outro para mudança, ou pelo menos, para pensar sobre elas. Então, reside na demanda de mudança proveniente de incômodo com seu modus operandi, incômodo que precisa ser suficiente para promover movimentos na direção do novo. Sem tais condições, as tentativas de transformar a ordem (ou a desordem) de outrem serão, na melhor das hipóteses, estéreis.

Em 1972, a personagem de Geraldine Chaplin, no clássico “Ana e os Lobos”, do genial Carlos Saura, já nos fazia pensar sobre isso tudo. Ela, uma jovem inglesa, chega a uma mansão de campo na Espanha para cuidar das 3 crianças que ali viviam, junto com seus pais, tios, a avó e muitos empregados. A dinâmica da casa gira em torno da matriarca controladora e mimada que passa os dias a demandar mil coisas, a ser carregada de um lado pra outro e a reclamar sobre como nada é mais como antigamente. De tempos em tempos, tem crises nervosas que a faz se debater no chão, momento de todos correrem para a acudir. Os filhos são três: um místico que vive buscando a renúncia das satisfações do corpo, um colecionador de armas e uniformes militares a quem é atribuído o poder de manter a ordem e o pai das crianças, o único casado, que tem o sexo como interesse central de sua vida. Através da relação, inicialmente de fascínio e interesse, que cada um começa a estabelecer com Ana, vai se revelando o caráter perigoso e mórbido da repetição, no universo asfixiante de uma realidade sem brecha para que ar fresco possa entrar. Fatos estranhos começam a ocorrer, proveniente das três facetas representadas pelos irmãos e, surpresa, Ana vai percebendo que todos sabem a quem atribuir a responsabilidade por tais ocorridos, percebe, também, que nada os espanta. Quanto mais vai entendendo a dinâmica da casa, mais a moça vai se aproximando de cada um integrantes e de suas manias. Nesse processo, vai buscando acesso ao universo particular de cada integrante da casa e, em determinado momento, parece imaginar ter conseguido entrada. Mas, ali, quando a mãe reclama do mal funcionamento das coisas na atualidade, está apenas ressentida por ter perdido o controle, ainda maior, que já teve. Ana, fica claro, teria sido contratada para ser mais uma a manter a ordem das coisas e não para altera-la. Talvez, ela venha a perceber isso tudo, tarde demais e o final dessas histórias, nesses casos, são sempre tristes. Mas, a arte está aí, também, para nos permitir a reflexão acerca das nossas escolhas cotidianas. Sem dúvida, onde e em que investir nossa força criativa merece, sempre,  o foco de tais reflexões.

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Publicado em 27 de maio de 2015 por .
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