Tecendo a Trama

Espaço pra contar histórias e dividir impressões sobre o lido, assistido, inventado, experienciado, cantado ou ouvido. Tecendo a trama do cotidiano.

Filme – Entre ontem e amanhã: Meia Noite em Paris

Por Ana Lucia Gondim Bastos

Entre o passado e o futuro encontra-se um tempo menos passível de idealizações, entretanto, o único efetivamente fértil para realizações. O futuro pode ser imaginado de diversas formas, tendo a passagem de um cenário idealizado a outro, sempre facilitada. É nele que projetamos encontrar o algo que, ao alcançarmos, poderá nos fazer “felizes para sempre”. Ao contrário do que propõe a poesia de Cecília Meireles “Ou Isso ou Aquilo”, o futuro é um tempo no qual o isso, o aquilo e muitos mais aquilos outros convivem e se alternam sem maiores compromissos com as leis da física. Uma hora posso me imaginar viajando pra China e logo em seguida me imaginar na Califórnia, posso vir a falar várias línguas ou conquistar qualquer título ou prêmio. Na hora da realização, no entanto, se faz preciso considerar os limites do tempo, do corpo, do mundo, das  relações, das habilidades e competências de quem vai priorizar o que realizar. É, justamente, aí que  o “Ou Isso ou Aquilo” se impõe, por vezes, de forma dolorosa. Uma dor que, quando enfrentada, pode anteceder a satisfação da realização do possível, realização do que se compartilha e do que promove transformações nos mundos externo e interno do seu responsável. Nesse processo, novos sonhos e objetivos vão ganhando contorno e o sentido da vida vai sendo renovado, sempre no presente. Assim, apesar da esperança habitar o por vir, ela só pode ser renovada no aqui e agora de cada história.

E quanto ao passado, o que podemos falar? O passado é um tempo passível de edição, de utilização de uma espécie de Photoshop da memória. É isso que nos faz nos orgulhar enormemente do que acontecia e do como as pessoas se relacionavam “no nosso tempo”, como se nosso tempo não fosse o presente, ou melhor, como se o presente não fizesse parte de um tempo que é nosso, tão nosso quanto o que já foi ou o que vai vir a ser, até que a morte nos separe da vida entre os homens. Da mesma forma, muitas vezes, tal idealização nos faz achar que nascemos no tempo “errado”. Pensamos que tudo seria diferente e mais promissor se estivéssemos num tempo anterior ao do nosso nascimento, com certeza, tempo de maior fartura e produtividade intelectual. Tempo que não comportava o vazio existencial que, tantas vezes, o presente comporta por considerarmos a vida insatisfatória ou por termos dificuldade de nos conformarmos com o fato de que a felicidade absoluta e plena só pode fazer parte da vida como abstração. Esse é o tema do brilhante e delicado “Meia Noite em Paris” (2011) , primeiro filme da série de roteiros nos quais Woody Allen dedicou-se a levar seus personagens para passear para fora dos domínios dos grandes centros urbanos dos Estados Unidos. Nele, Gil Pender (personagem interpretado por Owen Wilson), um roteirista com espaço já conquistado nos estúdios hollywoodianos e prestes a casar com uma bela moça de uma rica e conservadora família americana, tem, em uma viagem a Paris, a oportunidade de busca de referencias e inspiração para a mudança de rumo de sua trajetória que, há tempos, o vinha incomodando. Inicialmente, tais oportunidades acontecem em visitas ao passado parisiense, numa espécie de mágica que desresponsabiliza Gil do processo. Aos poucos tais visitas vão sendo entendidas e tratadas, pelo próprio protagonista, como fugas ao passado que, como tal, só poderiam condena-lo a um ciclo de repetição sem fim, não oferecendo chance alguma para o novo se manifestar no presente, única morada da esperança e espaço onde o encontro transformador com o outro pode acontecer. Numa história bem contada, com participações de personagens como Buñuel, Dali, Toulouse, Cole Porter e Picasso, no cenário encantador da Paris de todos os tempos e embalados por uma trilha sonora maravilhosa, impossível não projetarmos novas viagens a tempos e lugares de sonho. Se tais projetos ficarão no passado, no futuro ou entre o passado e o futuro, assim como, a serviço do que colocaremos tais projetos, fica a cargo de cada um, condicionados pelo o que estabelecemos como condutores de nossas narrativas. Seja qual for seu caso, Bon Voyage!

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Publicado em 27 de maio de 2015 por .
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