Crônica: Conselho Mineiro II

Por Ana Lucia Gondim Bastos

Sempre volto encantada de viagens a Minas. Quando estive lá, em 2015, para conhecer a nascente do Velho Chico, voltei inspirada não só pelas paisagens, mas, também, pela sabedoria do povo de fala mansa e compacta, que diminui e emenda palavras de modo a falar um tantão de coisa em pouco tempo, sem perder a calma e a profundidade dos enunciados. Já naquela época eu falava de minha atenção voltada aos ensinamentos de um povo que não se apaixona por alguém, mas com alguém . Isso sem contar que fora um compositor mineiro que, durante minha vida toda, me fez pensar no que quer dizer amor, estrada de fazer o sonho acontecer. Aquele mesmo que canta com seu vozeirão que qualquer maneira de amor vale à pena, qualquer maneira de amor vale amar! Bem, acho que, definitivamente, não precisava de mais argumentos para seguir atenta aos conselhos mineiros e não largar das estradas que me apontam! Então, em 2022, na volta dos sonhos de viagem, Minas esteve encabeçando a lista de para onde voltar.

Mais uma vez fui de carro pelas estradas que cortam montanhas e, durante a viagem, trechos de obras de poetas e escritores mineiros, além de histórias vividas naquelas terras, foram resgatadas da memória e compartilhadas, entre uma parada e outra para descobrir delicadezas e delícias de de beira de estrada. Enquanto brincávamos de reconhecer figuras nos recortes das montanhas, aceitamos o convite da placa que contava que teria pastel de angu no Museu do Jeca Tatu. Ali, descobrimos mais um lugar encantador, onde nada fica velho ou sem utilidade, tudo se transforma e segue tendo lugar para ser admirado. “Um susto de beleza”, repetia meu companheiro de viagem, acho que se referindo ao teor de surpreendente novidade que se revelava em tudo aquilo que era , ao mesmo tempo, tão conhecido de épocas passadas. Já chegando em Ouro Preto, me deparei com uma crônica de Fernando Sabino que passei a ler em voz alta. Em “O Coração do Violinista”, Sabino conta de um gostoso papo de botequim, no qual dois amigos discutem ambiguidades existentes nos entendimentos sobre o mundo, especificamente, no universo da música, provando que nem num universo regido pela matemática, a vida humana é exata. Aqui cabe lembrar que quando mineiro se refere a trem, nem sempre (ou quase nunca) está se referindo àquele que precisa de um trilho que o faz seguir caminho preciso. Feito adendo importante para quem quer entender um conselho mineiro, voltemos à crônica que termina com um pedido dos companheiros de bar, ao recém chegado violinista que, com suas dores de amor, busca por um trago. Precisam resolver um impasse e pedem que o violonista diga se piano é instrumento de percussão ou corda. Com um suspiro próprio dos que tem coração partido, responde com nova inquietação: “E o coração… É instrumento de sopro ou de percussão?”.

Rimos com o desfecho inesperado da conversa de botequim, proposta por Sabino, e seguimos o caminho prestando ainda mais em nossos corpos e na musicalidade que comportam. Já a pé pelas ruas de pedras em Ouro Preto, me deparei com uma resposta ao violinista que passou a viver dentro de mim. Numa camiseta do tipo souvenir que passa a mensagem “estive em Minas e lembrei de você”, uma frase: “Mineiro não enfarta, mineiro tem um trem no coração”. Estava tudo explicado, então! O coração, definitivamente, é um instrumento de percussão para quem topa a aventura de se apaixonar com aqueles trens tudo. Contudo, ao buscar certeza de resposta em poemas de outro mineiro com sabias palavras sobre as coisas de amar, mais ainda na dúvida (não) me encontrei. Pois se Drummond diz que “(…)O amor bate na porta/ o amor bate na aorta (…)”, diz, também, que “(…) é dado de graça, é semeado pelo vento, na cachoeira, no eclipse (…)”. Volto para casa com mais consciência desse trem no peito – meio feito de sopro, meio de percussão – feliz com a imprecisão da vida, que faz nunca termos respostas únicas, e com a precisão dos poetas que nos fazem poder sonhar a partir dessa única certeza.

Referências literárias, musicais e poéticas:

Milton Nascimento – “Quem sabe isso quer dizer amor” e “Paula e Bebeto”

Fernando Sabino – “O Coração do Violonista”

Carlos Drummond de Andrade – “O Amor Bate na Porta” e “As Sem-Razões do Amor”
@museujecatatu – Museu de antiguidades criado por Leonardo Ruggio •Em Itabirito na Rodovia 356.

Crônica – Conselho de Mineiro


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