Filme – O Drama

Por Ana Lucia Gondim Bastos

Desde seu lançamento neste ano, ouvi múltiplos comentários sobre O Drama, filme do norueguês Kristoffer Borgli, uma produção da badalada A24. Contudo, tudo o que cheguei a ouvir, tanto nos meios mais acadêmicos quanto nos mais informais, dizia respeito ao roteiro bem amarrado, que traz uma discussão que esbarra em questões morais, éticas e, sobretudo, na confiança e na possibilidade de transformação dos sujeitos.

Se você foi capaz de planejar algo criminoso no passado, mas não o executou por um acaso do destino, poderá algum dia ser considerado um sujeito livre de qualquer suspeita? Ou estará sempre correndo o risco de que uma suposta “faceta criminosa” venha à tona?

Entre os psicanalistas, é claro, emerge a discussão sobre as implicações da fantasia na subjetividade, sempre com a ressalva: mas ele ou ela só não chegou às vias de fato por interdição do acaso; não foi algo apenas imaginado. A fantasia teria atravessado a fronteira do pensamento. Entre os casais, vem a questão do quanto conhecemos nossos parceiros na intimidade da intimidade. E é quando entram novamente os psicanalistas, falando do inquietante que reside em cada um de nós e perguntando o quanto, afinal, achamos que conhecemos de nós mesmos.

Enfim, a história, muito bem contada, parte de uma conversa às vésperas de um casamento aparentemente perfeito sobre qual seria a pior coisa que cada um, noivos e padrinhos, já fez na vida e que poderia colocar tudo a perder, inclusive relações que pareciam solidamente constituídas.

Rapidamente, a pergunta virou tema de sala de aula e de mesa de bar. Eu, sem ter assistido ao filme e sabendo muito pouco sobre os atores, Zendaya e Robert Pattinson, entrava nessas conversas à maneira de uma psicanalista que escuta histórias e sabe do que fantasias que vêm à tona podem provocar nas relações intersubjetivas. Fazia, inclusive, referência a “De Olhos Bem Fechados” (Kubrick, 1999) pensando justamente nesse território em que intimidade, desejo, fantasia e desconhecimento se esbarram.

Contudo, uma coisa me surpreendeu quando finalmente assisti ao filme: ninguém havia me contado sobre as relações raciais expressas ali. E talvez seja importante começar por mim mesma. Talvez isso diga também respeito aos ambientes que frequento e nos quais circulo como psicanalista branca em São Paulo, ainda que sejam, em muitos casos, espaços progressistas, atentos às desigualdades e empenhados em processos de letramento racial. Isso não nos coloca, evidentemente e de maneira alguma, fora das marcas da branquitude nem dos modos pelos quais determinados elementos podem permanecer invisíveis justamente para aqueles que ocupam determinados lugares sociais.

Talvez eu mesma estivesse reproduzindo, ao entrar nas conversas sobre o filme, esse recorte, pois fui imediatamente convocada pelas questões que reconheço como próprias do meu campo, a fantasia, o desejo, o segredo, a intimidade, o inquietante, a responsabilidade pelo que se deseja e a possibilidade de transformação do sujeito. Eu sabia escutar aquela história a partir da psicanálise, daquele modo. O que eu não estava escutando era a dimensão racial e de classe que também organizava aquela história e, sabemos, organizam toda e qualquer história e nada menos psicanalítico do que não ouvir histórias considerando esses fatores socialmente estruturais. Não me contaram e, eu tampouco perguntei, acerca dos contextos de onde vinham os personagens. Ninguém me contou quais eram os personagens negros ou brancos. Ninguém me falou sobre os mais ricos ou os mais pobres, sobre seus lugares de trabalho, suas posições sociais, os espaços que ocupavam ou os lugares de poder dos quais participavam. E essas não me parecem informações secundárias. Ao contrário, são informações fundamentais para a leitura de qualquer história, sobretudo quando somos convidados a produzir juízos morais ou criminais.

Em Anatomia de uma queda (Triet, 2023), por exemplo, não é um detalhe a ser desconsiderado o fato de a suspeita de um suposto assassinato ser uma mulher. Do mesmo modo, em O Drama, não é um detalhe a ser desconsiderado que a personagem suspeita de não conseguir superar um passado marcado por ideias condenáveis seja uma mulher negra. Essas características não são meros atributos dos personagens. Elas participam da própria construção da narrativa e, sobretudo, da maneira como somos convocados a olhar para eles, a interpretar suas ações e a produzir julgamentos sobre quem são. Talvez esse seja justamente um dos efeitos mais difíceis de reconhecer quando falamos de letramento racial, saber que precisamos olhar não significa necessariamente conseguir enxergar tudo aquilo que a nossa posição social nos ensinou a não perceber. Porque a pergunta “o que você fez de pior?” não é uma pergunta socialmente neutra. Tampouco é neutra a pergunta sobre quem merece confiança quando uma fantasia criminosa vem à tona. Não somos suspeitos da mesma maneira. E isso aparece quando a madrinha branca que conta uma crueldade que cometeu a uma criança com deficit cognitivo é questionada em função do rígido julgamento moral que faz sobre o crime planejado e não executado na adolescencia da noiva negra, ela logo rebate dizendo ser muito diferente.

A possibilidade de que uma fantasia seja interpretada como fantasia, e não como revelação de uma essência, também não está igualmente distribuída entre os sujeitos. Um personagem branco, rico, socialmente reconhecido, circulando em determinados espaços de prestígio, pode ter sua transgressão lida como ambivalência, complexidade, conflito, segredo, trauma ou mesmo como uma dimensão inquietante de sua humanidade. Mas o que acontece quando o sujeito que porta essa mesma fantasia é negro? Ou pobre? Ou ocupa um lugar social já historicamente associado à periculosidade, à violência ou à ameaça? Aí com certeza a discussão psicanalítica sobre fantasia precise encontrar a discussão racial.

A psicanálise nos ensina, e essa é uma de suas contribuições fundamentais, que o sujeito não pode ser reduzido àquilo que pensa, fantasia ou deseja. Fantasia não é ato. Desejo não é passagem ao ato. O sujeito é constituído contradições, ambivalências, conflitos e transformações. Mas essa distinção não acontece fora da história. É nesse ponto que o filme, para mim, ganha uma dimensão que ultrapassa a discussão sobre o inquietante na intimidade. Seria preciso perguntar também “Quem pode imaginar o pior e continuar sendo reconhecido como alguém complexo, enquanto outros são rapidamente transformados naquilo que a sociedade já suspeitava que fossem?”

O filme não apresenta apenas indivíduos que guardam segredos. Apresenta sujeitos situados socialmente. Seus corpos, suas relações, seus trabalhos, seus recursos econômicos e seus lugares de circulação participam daquilo que vemos e, sobretudo, daquilo que deixamos de ver. Porque o passado de um sujeito não é interpretado apenas pelo conteúdo de seu ato, ou de sua fantasia. Ele é interpretado também pelo lugar social daquele que é acusado, daquele que confessa e daquele que escuta. Talvez seja por isso que a ideia de transformação humana, tão central ao filme, mereça ser radicalizada.

A psicanálise trabalha justamente com a possibilidade de transformação. O sujeito não é uma identidade fixa, não coincide integralmente com seus atos passados, nem é transparente para si mesmo. Há recalque, conflito, repetição, elaboração. Há possibilidades de mudança. Mas podemos acrescentar uma pergunta política a essa questão clínica: todos os sujeitos têm o mesmo direito social à transformação? Ou alguns precisam provar permanentemente que não são aquilo que a sociedade decidiu que poderiam ser? É nesse ponto que a ausência da discussão racial na recepção que ouvi me parece particularmente reveladora. Talvez estejamos diante de uma espécie de ponto cego da própria crítica, conseguimos enxergar com facilidade a fantasia, o segredo, o desejo, a traição, a culpa e o inquietante, mas deixamos de perguntar quem são os corpos aos quais essas fantasias são atribuídas e a partir de quais histórias sociais esses corpos são julgados.

O filme prima por falar sobre essas relações sem ser didático ou professoral. Está tudo ali, para quem puder ver. Cada vez mais, nossas formações psicanalíticas se percebem tensionadas pela necessidade de se haver com as marcas coloniais que atravessam nossas escutas. No entanto, ainda somos levados a pensar que essa discussão seria especialmente importante para compreendermos o sofrimento de Emma, a noiva, podendo ouvi-la a partir daquele lugar social de “sujeito suposto suspeito”, para utilizar um conceito cunhado pela psicanalista mineira Andrea Guerra.

Mas é preciso ir além: não se trata apenas de racializar a escuta quando o sujeito escutado é negro, mas de reconhecer que raça, gênero e poder constituem todos os sujeitos, inclusive aqueles que ocupam lugares socialmente privilegiados. Sem essa discussão sobre aquilo que o colonialismo, em suas matrizes racistas e patriarcais, nos permite ou não permite ouvir e ver, também fica comprometida a compreensão das dúvidas, dos sofrimentos e das acusações dos personagens brancos, o noivo, Charlie, ou a madrinha, por exemplo. Afinal, os lugares sociais não são apenas circunstâncias externas aos sujeitos, eles participam daquilo que podemos reconhecer como sofrimento, conflito, desejo, culpa, suspeita e verdade.

Termino com uma reflexão que tem me mobilizado cada vez mais, todo saber psicanalítico precisa ser articulado pelas discussões acerca das relações raciais, de gênero e de poder nas quais os sujeitos são forjados. E isso vale independentemente de quem esteja diante de nós. Se seguirmos considerando que o aprofundamento da discussão sobre o racismo serve fundamentalmente à escuta do sujeito negro, corremos o risco de continuar essencializando o sujeito branco como universal, justamente o lugar que o pensamento colonial lhe reservou. Não se trata, portanto, de acrescentar a questão racial à escuta de alguns sujeitos, como um conhecimento especializado necessário para compreender “o outro”. Trata-se de reconhecer que a racialização, assim como o gênero e as relações de poder, participa da constituição de todos nós e, portanto, daquilo que cada sujeito pode dizer, sofrer, desejar, temer e fazer reconhecer como verdade.

Talvez seja também por isso que essa discussão seja tão importante para Emma e Charlie. Não apenas para compreender suas posições e seus sofrimentos, mas para que possam, a partir daquilo que conseguem ou não conseguem ver de si mesmos e das relações que os constituem, continuar construindo o futuro que parecia tão auspicioso.

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