Tecendo a Trama

Espaço pra contar histórias e dividir impressões sobre o lido, assistido, inventado, experienciado, cantado ou ouvido. Tecendo a trama do cotidiano.

Filme – Tomboy

Por Ana Lucia Gondim Bastos

O filme de Céline Sciamma (2011), Tomboy, começa com uma cena de gostosa cumplicidade cotidiano entre o pai e uma criança de aproximadamente 10 anos. Durante parte do início do filme não fica claro se é um menino ou uma menina, já que usa cabelos curtos, camiseta e bermuda. Quando a família se reúne, somos apresentados tanto aos seus integrantes, quanto ao seu contexto: Uma mãe em final de gravidez, uma menina de uns 6 anos (e sabemos disso tanto pelos dentes ainda em fase de troca, quanto das roupas de bailarina e os cabelos compridos), o pai e essa criança mais velha que vai nos convencendo ser um menino, até que na saída de um banho, descobrimos que é uma menina (até, então, não tinha sido chamada pelo nome, Laure, outra dica que teríamos). O contexto é o de uma casa nova e nova vizinhança para a família que está prestes a receber um novo membro. De cara, então, o filme já nos faz pensar como acontece nossa distinção entre as pessoas, segundo o gênero e, em especial, entre as crianças que ainda não entraram na puberdade. O quarto de Laure é azul e sem muitos enfeites e ela brinca e cuida de sua irmã caçula com devoção (mais adiante, no filme, isso também é interpretado pela caçula como atitude de irmão mais velho, aquele que protege a menina mais nova). Sem que façamos esforço o filme nos leva à discussão sobre validades e valores da dicotomia que fazemos entre mundo cor de rosa e o azul, definidores de mulheres femininas ou não, e de homens masculinos ou não. No caso das mulheres, há décadas são travadas lutas para se abrir espaço social, no mundo cor de rosa, para calças compridas, cabelos curtos e interesse por dirigir carros e a própria história. No caso dos homens, esse esforço de abertura, no mundo azul, ainda é muito recente e limitado, o que, talvez, fizesse o filme seguir outro rumo se o protagonista fosse um menino. Digo isso, pois, o fato é que os pais de Laure deixam seu quarto azul e deixam que a menina escolha sua forma de vestir (sem laços ou tules, como tanto gosta a irmã caçula). Para tudo isso já existe algum espaço social conquistado, talvez, se fosse um menino a querer sair de vestido, ainda fosse algo que criasse um mal estar familiar… Mas, vamos nos ater à história de Laure que não era tratada como um menino, no contexto familiar, pelas escolhas que fazia, mas que, na nova vizinhança, acaba se apresentando como Michael e assume uma identidade masculina no grupo de crianças. É claro que tal decisão vai criando situações de dificuldade crescente para se manter (desde o momento de uma parada de todos os meninos para o xixi, até ter que envolver a irmã caçula na trama para que ela pudesse ser incluída à turma, passando por um dia de brincadeira na água, de sunga). Mas, Laure era uma criança e, como tal, tinha dificuldade de prever algumas consequências futuras de seus atos: um dia as férias iriam acabar e no lugar de Michael, Laure seria o nome da chamada na mesma escola que os novos amigos estariam frequentando. Também não pensara na possibilidade de um romance poder pintar, pois ainda estava pensando em brincar e viver como um menino e não como um rapaz.

Mas, ela esconde da família tal decisão e segue se apresentando como Michael aos amigos da rua. Nos momentos de maior constrangimento e possibilidade de ser descoberta como Laure, mostra sua fragilidade infantil. Faz uma sunga cortando um maiô e simula a existência de um pênis com uma prótese feita de massinha de modelar (essa última guardada na caixinha, junto com os dentes de leite. Aqueles sem raiz que caiem durante a infância!). Também, busca segurança e conforto no colo do pai, chupando o dedo polegar, como um bebê. Por essas e outras, penso que Laure era muito nova (ou imatura) para uma decisão que pudesse ter o status de escolha por identidade de gênero. Ao final, quando descobrem, a mãe a leva para enfrentar a verdade diante dos amigos antes que as aulas comecem.

Uma situação de angústia extrema que, sabemos, muitas crianças vivem e que tem levado muitos educadores à reflexão. Afinal, hoje, já é possível pensar em uma variedade grande de alternativas de formas de identidade de gênero e mesmo orientações sexuais, sem recorrer à patologizações. Contudo, em que idade podemos falar de uma deliberação mais madura acerca de quem é e de como se quer ser no mundo? Em sua obra “Educação e Emancipação”(1970), Adorno nos fala do perigo de prendermos nossas crianças numa massa sem rosto, acrítica e sem contorno identitário, ao atribuirmos autonomia de escolha ao desejarem segundo os ditames do mercado. Penso que, muitas vezes, fazemos isso com as crianças a quem atribuímos desejo por ser de um gênero ou de outro, por identificações ainda infantis. Talvez mais eficiente de nossa parte fosse lutarmos, do lugar de adultos, para que dicotomias tão rígidas entre os mundos azul e cor de rosa, não existissem. Ainda mais no universo infantil, mas, começando pelo adulto. Se os pais pudessem usar saias como as mães podem usar calças (hoje, pode parecer tão estranho um homem de saia, quanto foi, para década de 20, uma mulher de calça!), se as lojas de brinquedos pudessem ter super heróis para todas as crianças, bonecas e bonecos para todas, além de carrinhos e brinquedos de montar. Talvez, assim, Laurens não precisassem se tornar Michaels e poderiam ser percebidos de outra forma, além da de uma menina que quer ser um menino. Teríamos, quem sabe, estratégias mais produtivas para oferecer espaço para um desenvolvimento saudável e, portanto, escolhas futuras mais maduras. Mais do que rotulando-a como uma menina que gosta de coisas de meninos, ou vice versa em outros casos (bem usuais, diga-se de passagem!), mesmo que a intenção seja a de autoriza-la a ter interesses não usuais (?) . Se uma menina gosta de carrinho, este automaticamente, não passa a ser dela? E se um menino se interessa por brincar com bonecas, não deveria passar, imediatamente,  a ser coisa para ele?

Por um lado, fico pensando em como as coisas mudaram, tendo em vista que as descrições dos caminhos edípicos podem ser múltiplas (sem um único caminho a ser considerado saída saudável e todos os outros desviantes), por outro lado, não estaremos dando passos de caranguejo ao expor nossas criança a definições que só são necessárias por ainda contarmos com um mundo bipartido? Talvez seja preciso um esforço de mudança  ainda maior  no mundo para já apresenta-lo diferente: com toda a multiplicidade de alternativas de ser, viver e fazer nele/com ele e por ele.

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Um comentário em “Filme – Tomboy

  1. Pingback: Cinéfilo Mitã – Tomboy | Lugar de pensar a infância

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Publicado em 10 de junho de 2015 por .
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