Tecendo a Trama

Espaço pra contar histórias e dividir impressões sobre o lido, assistido, inventado, experienciado, cantado ou ouvido. Tecendo a trama do cotidiano.

Filme – Para sempre Alice ou Ainda Alice

Por Ana Lucia Gondim Bastos

O que faz sermos quem somos? Desde o nascimento, mesmo sem consciência do que estivesse acontecendo, fomos recebidos numa dada cultura, ganhamos um nome carregado de expectativas em relação a quem poderíamos vir a ser e , também, ganhamos roupas e brinquedos que já contavam muito sobre aquela cultura que nos recebeu. Enfim, através dos primeiros cuidados, que nos foram oferecidos, se deu o início da transformação daquele bebê que fomos no adulto que somos hoje. Isso me faz lembrar de um trocadilho de criança, contada por Ruth Rocha no seu conto, Therezinha e Gabriela. Conta Ruth Rocha que quando perguntavam a Gabriela como ela se chamava, ela sempre respondia: eu não me chamo, os outros é que me chamam de Gabriela! Brincadeira falada em tom jocoso, mas que remete ao início da identidade de toda e qualquer Gabriela, Therezinha, João, Alfredo ou José. Fomos primeiro chamados para depois, um dia, falarmos com convicção: – Quem sou eu? Ora, sou Gabriela!

Os álbuns de bebês não mostram dúvida a quem pertencem, ainda que seu proprietário não possa dizer como se chama. Comumente, trazem legendas nas fotos que descrevem situações do tipo: “eu e vovô, na praia” ou “Gabi e sua amiguinha de parquinho” e assim por diante. Dizeres que vão contando pras Gabis sobre as relações, e as formas como podem acontecer, com as quais vão poder contar vida afora. Até que chega um dia que de tão óbvio que Gabi é Gabi, ela pode brincar com o que um dia foi muito verdade, como propõe Ruth Rocha.

A partir disso, também podemos chegar no fato de que toda história humana é, também, uma história de perdas. Isso porque, estamos sempre sujeitos às mudanças e cada uma delas comporta muitas perdas, inclusive, de partes nossas que vão ficando como registros de memória da pessoa que fomos, em cada momento da vida. Nossos gostos, interesses, brincadeiras, medos etc. Tudo muda e não parece segredo para ninguém. Lembramos com nostalgia das modas de décadas passadas, dos sabores da infância e dos lugares que vivem na memória.

Em “Para Sempre Alice” (Wesrmoreland e Glatzer, 2014), Julianne Moore, numa atuação que lhe rendeu o Oscar, conta da angústia de se perceber perdendo, justamente, a memória, assim como a perspicácia que a definia, até então, enquanto renomada professora de Harvard. Alice que, na juventude, perdera a mãe e a irmã, num acidente de carro, conhecia bem as mudanças de rumo que a vida pode tomar, sem que possamos controlar. Por outro lado, sentia que “de dentro para fora” tudo estaria mais sob controle. Construiu uma carreira brilhante e sólidas relações familiares. Mas, o diagnóstico de um caso precoce de Mal de Alzheimeir, coloca toda essa construção em xeque e Alice passa a sentir que estaria se perdendo de si própria. Inclusive, por isso, grava vídeos para a Alice do por vir, orientando-a a agir segundo as formas e parâmetros de decisão do presente. Contudo, é fácil supor que as relações com o mundo, com espaço, com o tempo e, mesmo com suas próprias demandas vão estar tão modificadas que tais orientações não farão mais sentido. Mas, então, não será mais ela, ali na cena? Achei bonito o título do filme e acho que, realmente, fala mundo sobre o que vamos assistir. Apesar de não poder mais estar na sala de aula, de poder se dedicar a pesquisas ou mesmo de poder lembrar de seu endereço ou dos nomes dos filhos, ainda é Alice (Still Alice). Alice que teve aqueles filhos e não outros, aquela história que a faz ser cuidada por aquelas pessoas, naquele tempo particular e naquele espaço específico. As conversas mudaram, o jeito das relações acontecerem mudaram, a memória mudou, mas para sempre será Alice.

Continuemos, então, tentando nos conformar com “A Arte de Perder” – tão pouco misteriosa aos seres humanos, apesar de tão temida – apostando no valor e na potência das belezas do presente que nos farão, independente de como estaremos no futuro, reconhecíveis aos que nos chamam pelo nome, com amor.

A Arte de perder

Elizabeth Bishop

A arte de perder não é nenhum mistério

Tantas coisas têm em si o acidente

De perde-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouco a cada dia. Aceite austero.

A chave perdida, a hora gasta bestamente,

A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com menos critério:

Lugares, nomes, a escala subsequente

da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio da mamãe. Ah! E nem quero

Lembrar a perda de três casas excelentes.

A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas, um império

Que era meu, dois rios, e mais um continente.

Tenho saudades deles, mas não é nada sério.

Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo, que eu amo)

Não muda nada. Pois é evidente

Que a arte de perder não chega a ser um mistério

Por muito que pareça (escreve) muito sério.

(tradução de Paulo Henriques Britto)

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Publicado em 20 de julho de 2015 por .
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