Tecendo a Trama

Espaço pra contar histórias e dividir impressões sobre o lido, assistido, inventado, experienciado, cantado ou ouvido. Tecendo a trama do cotidiano.

Filme – Homem Irracional

Por Ana Lucia Gondim Bastos

Woody Allen, novamente, nos oferece um filme que, desde o título até a última cena, vem repleto das ambiguidades, ambivalências, incoerências, incongruências e insatisfações que (qualquer?) história humana comporta. “Homem Irracional” (2015) é mais um suspense, contudo, numa trama com ritmo, cores e trilha sonora de um drama recheado de romance, salpicado de comédia.

Conta a história de Abe Lucas, um homem que, se um dia sonhara em mudar o mundo, hoje, se define como um intelectual passivo e brocha. É o personagem de Joaquim Phoenix, um professor de filosofia que, depois de viver alguns dramas pessoais (traição da mulher e morte do melhor amigo), parte sozinho para dar um curso de verão, na universidade de uma pequena cidade americana. O passo a passo da história que o levou a considerar que “o divertimento acabou” e a não ver mais sentido na vida, vai nos sendo apresentado, ao mesmo tempo, pelos deslocamentos de seus questionamentos filosóficos e pelo desenvolvimento dos íntimos relacionamentos, que passa a estabelecer, com uma aluna (mais um papel oferecido por Wood Allen a Emma Stone) e com uma colega de trabalho (papel de Parker Posey). E é, justamente, esse o ponto alto do filme: nos fazer acompanhar, tanto através das discussões filosóficas, quanto das experiências relacionais, o percurso do personagem que vai da depressão e completa submissão aos acasos da vida à super potência da ação, no momento no qual se percebe capaz de fazer justiça com as próprias mãos, idealizando o assassinato de um desconhecido juiz corrupto.

Abe cita Sartre, em sala de aula: “O inferno são os outros”. Em sua edição de “Crime e Castigo”, faz anotações acerca da banalização do mal, de Hannah Arendt. Isso depois de apresentar, para seus alunos, a moral kantiana como uma impossibilidade e definir a ansiedade como a vertigem diante à liberdade, segundo Kierkergaard. Quando decide, de uma vez por todas, arquitetar um plano para tirar a vida de alguém que supunha fazer mal a outrem, retoma o amor por sua própria vida e, portanto, tal crime não pode se associar a castigo de qualquer espécie.

No fim (sem contar o fim), o mesmo Woody Allen de sempre, resignado ao acaso e à mesquinhez da condição humana. Em suma, é “Match Point”, mas não é “Match Point”. É “Crimes e Pecados”, mas não é “Crimes e Pecados”… Ou seja, sempre vale à pena esperar o novo filme dele, ainda que (ou por isso mesmo) com sabores antigos.

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Publicado em 11 de setembro de 2015 por .
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