Tecendo a Trama

Espaço pra contar histórias e dividir impressões sobre o lido, assistido, inventado, experienciado, cantado ou ouvido. Tecendo a trama do cotidiano.

Filmes – Entre a realidade e a fantasia na trilogia da dupla Saura e Gades

Por Ana Lucia Gondim Bastos

O cinema é espaço privilegiado da evidência de como realidades, linguagens e expressões se mesclam em nossa percepção das coisas que acontecem na vida, em nosso jeito de contar histórias e nas versões que delas escolhemos. Nos sabemos sentados numa sala escura à espera de projeções de imagens em movimento, numa tela branca, que nos façam sonhar. E, quando a mágica começa, percebemos que somos capazes de viver muito mais histórias, personagens ou sentimentos, do que nossa vida parece comportar! Em 1981, foi lançado o primeiro resultado do encontro do diretor espanhol Carlos Saura com o coreógrafo de dança flamenca, Antônio Gades. Essa dupla, foi responsável por uma trilogia de filmes que une, com maestria, dança, música, poesia e literatura, no universo do cinema. Para isso, foram convidados a participar (com seus textos, ideias ou corpos), além do incrível grupo de dança do próprio Gades, nomes como Garcia Lorca, Bizet, Manuel de Falla e Paco de Lucia. Nos três filmes, as cenas de preparação dos bailarinos para ensaios, os diálogos que contam de seus cotidianos e suas próprias histórias, vão nos fazendo ter contato com eles como personagens que incorporarão outros personagens, tão próximos e, ao mesmo tempo, tão distantes de cada um deles, ou, de cada um de nós. Os recursos cênicos, sempre à mostra, apresentam como uma nova realidade vai sendo forjada pelo cinema. Ao mesmo tempo que a própria simplicidade e despojamento, com que Saura se aproxima da experiência de bailarinos se preparando para um novo espetáculo, mostra o quão pouco é forjada a realidade construída pelo cinema. Em especial, em Carmen (1983), vida e arte se misturam de maneira a confundir o espectador. Em Bodas de Sangue (1981, o primeiro filme da trilogia) nos é apresentado um ensaio geral da companhia de Gades para uma adaptação à uma obra de Garcia Lorca. A sala com espelhos, as interrupções do coreógrafo para a direção das cenas ou a movimentação dos bailarinos, não tiram o encantamento da história. Ao contrário, nos faz entrar numa história dentro da outra, como se estivéssemos “brincando” com uma daquelas bonequinhas russas, que trazem uma sequencia de exemplares semelhantes, só que em tamanhos diferentes, um dentro do outro. O último filme, já obedece mais ao jeitão clássico de contar histórias na telona, com bailarinos assumindo identidades dos personagens da obra de Manuel de Falla, deixando para fora do setting, suas identidades cotidianas. Mesmo com a apresentação das estruturas do cenário, contando que aquilo tudo foi montado para virar uma aldeia de ciganos que só existirá no tempo e no espaço do filme, não vemos Gades ser chamado de Antônio, pelos colegas, nem vemos ele se referindo à sua primeira bailarina (Cristina Hoyos) como Tina. Mas, talvez por já estarmos familiarizados com os bailarinos e músicos, em função dos outros filmes, talvez pelo próprio o clima de musical e pelo enredo fantasmagórico que conta como ficamos muito mais presos aos amores que não deixamos partir do que aos que estamos vivendo, faz com que percebamos como a vida tem as cores da fantasia e vice versa. Na verdade, na maior parte do tempo, é difícil, mesmo, saber quem está dirigindo a cena!

images

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 7 de dezembro de 2015 por .
%d blogueiros gostam disto: