Tecendo a Trama

Espaço pra contar histórias e dividir impressões sobre o lido, assistido, inventado, experienciado, cantado ou ouvido. Tecendo a trama do cotidiano.

O Pior das Olimpíadas

Por Ana Lucia Gondim Bastos

O pior das Olimpíadas nunca está no desempenho dos atletas. Nem quando caem, queimam largadas, erram saques ou chutes a gol. São todos erros de avaliação, análogos a situações bem corriqueiras de cada um de nós. Por isso, Antonio Prata nos convida, na sua coluna de ontem*, a imaginar nossos fracassos cotidianos sendo transmitidos, em cores e ao vivo, pro mundo todo. Já pensou cada derrapada na dieta, erro de conta em mais uma tentativa de se passar no vestibular ou escolha de mudança de rumo profissional que não deu o resultado esperado, tudo televisionado e, imediatamente, questionado?

 “Uma palavrinha, Gláucia?! A Gláucia tá saindo da Fuvest, tá fazendo cursinho há três anos pra medicina, tava gabaritando os simulados, mas na hora do vamos ver errou até raiz quadrada de 4. E aí, Gláucia? Exausta, família decepcionada, três anos jogados fora, que que você sente numa hora dessa?
“Estamos aqui com o Alberto Boucinhas, Alberto que tava encarando uma dieta Atkins, categoria acima de 150 quilos, e aí, Alberto? Vinha aí num ritmo bom, quatro semanas, tinha perdido quase dez, a Neide confiante, mas duas da manhã e você acaba de traçar um pote de napolitano com Nutella. Que que foi? Estresse? Muita pressão da Neide?”

Sim, sabemos muito bem pelo que passam os atletas. Por isso, não somos poucos a sofrer com suas derrotas ou a nos emocionar com suas vitórias. Mas, também, não somos poucos a pretender que cada atleta brasileiro seja espelho generoso de nós mesmos: infalível, incasável e, principalmente, preciso! Não levar o ouro é até admissível, mas cair de bunda, nunca! A possibilidade de ter feito tudo certo na preparação para um grande feito, de querer muito aquilo tudo e ter todo o potencial para alcançar um bom resultado, não garante que, na hora H,  tudo vá acontecer como no melhor cenário idealizado. Às vezes, acontece até pior do que no pior dos cenários considerados! E isso é duro de engolir. É nessa hora que – os que precisam da certeza de que o controle absoluto existe e precisam, também, de telas de projeção para escapar de suas próprias frustrações e medos do futuro – sentam em seus sofás diante da televisão ou protegidos atrás da tela do computador e vociferam insultos irresponsáveis, inconsequentes e desrespeitosos, àqueles que fizeram o melhor que puderam, nos minutos para os quais se prepararam por anos, em treino intenso!

Impossível não lembrar, aqui, do Poema em Linha Reta de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos) e citá-lo na íntegra:

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.”

E o que dizer das notícias escandalosas, não menos inconsequentes, irresponsáveis e desrespeitosas, que especulam a vida sexual dos atletas, expõem intimidades e tornam público o que era absolutamente de ordem privada e em nada toca o aspecto profissional do atleta?

Sem dúvida, essa é a parte mais triste das Olimpíadas! Parte que, por vezes, empana o brilho de tantas conquistas, de tanto trabalho árduo e tanta aprendizagem que podemos ter com a determinação, o empenho e a coragem de nossos atletas. Que, como eles, sejamos capazes de tentar fazer o nosso melhor e, se não der, que não percamos a esperança num futuro promissor! Parabéns aos medalhistas, parabéns aos que ainda batalham por medalhas e parabéns aos que já fizeram o que foi possível! Todos estão merecendo nossos aplausos!

*http://www1.folha.uol.com.br/colunas/antonioprata/2016/08/1802670-e-se-os-nossos-fracassos-tambem-fossem-transmitidos-ao-vivo.shtml

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Publicado em 16 de agosto de 2016 por .
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