Tecendo a Trama

Espaço pra contar histórias e dividir impressões sobre o lido, assistido, inventado, experienciado, cantado ou ouvido. Tecendo a trama do cotidiano.

Filme – Loucas de Alegria

Por Ana Lucia Gondim Bastos

O cartaz do filme, de cara, nos remete ao road movie, dirigido por Ridley Scott (1991), “Thelma e Louise”. Carro conversivel, duas jovens mulheres na estrada, Valéria Bruni Tadeschi, inclusive, com um charmoso lenço que virou marca registrada da Louise de Susan Sarandon. Contudo a expressão perplexa da motorista de “Loucas de Alegria” (Paolo Virzi, 2016), contrasta com o todo da paisagem ou mesmo com o título do filme que parece fazer referência a uma comédia. Talvez uma tradução não muito feliz do original “La Pazza Gioia”, que, ao pé da letra, oferece um encaixe melhor entre o título e o que nos deparamos, na sala escura: Alegria maluca.

Em excelentes atuações, Tadeschi e Micaela Ramazzoti dão vida a Beatrice e Donatella, duas mulheres que se encontram em uma instituição psiquiátrica que atende mulheres envolvidas em processos judiciais. Cada uma em sua própria redoma de vidro (como descreve Sylvia Plath, acerca da dificuldade, promovida pela loucura, de acessar e se expressar na realidade compartilhada) “cozinham”, internamente, dores e dissabores das histórias que contaram até chegar ali. Beatrice, numa verborragia cansativa, tenta manter sua posição de socialite, bem relacionada, enquanto Donatella, traz no corpo (esquálido e todo tatuado) as pistas da história que cala. Uma combinação que, à primeira vista, não traria bom resultado em termos de troca afetiva ou, minimamente, dialógica. Mas, como os encontros humanos têm um grande potencial de imprevisibilidade, uma hora, Beatrice passa a não falar mais sozinha, contando com a escuta atenta de Donatella que, por sua vez, passa a sentir ter voz para contar sua história, ao lado de Beatrice. Numa viagem, longe da ideia de ser louca de alegria, as duas saem em busca de algo que sentem terem perdido no caminho que traçaram durante a vida, talvez numa alegria (ou esperança) maluca, a única possível naquele momento. Num filme tenso e denso, com belas paisagens e roteiro envolvente, Virzi explora a delicadeza e a importância dos vínculos afetivos e do sentimento de pertencimento para que não sejamos trancafiados em redomas de vidro, cozinhando, sós, em nossos próprios azedumes, parafraseando Sylvia Plath. Numa, aí sim, louca alegria de nos sentir livres para sermos quem somos e do jeito que podemos ser, atendendo ao grito de alerta de tantas Beatrices, Donatellas, Themas e Louises.

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Publicado em 13 de setembro de 2016 por .
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