Tecendo a Trama

Espaço pra contar histórias e dividir impressões sobre o lido, assistido, inventado, experienciado, cantado ou ouvido. Tecendo a trama do cotidiano.

Teatro – Mulheres Ácidas

Por Ana Lucia Gondim Bastos

As narrativas de vida, de nós mulheres, estão bem longe dos roteiros melosos dos filmes de princesas da Disney. Tampouco são lineares ou previsíveis, com moças doces e angelicais em busca de um destino tranquilo e harmônico, ao lado de seus príncipes encantados e encantadores. Ainda que sempre atrapalhadas por bruxas do mal (geralmente, representadas por outras mulheres, velhas e invejosas), as princesas desses filmes, dublados para crianças de todas as idades, sempre têm a convicção de que o bem vence o mal e, resilientemente, aguardam o momento do “… e viveram felizes para sempre”. Mas, na vida vivida fora dessas doces histórias, a complexidade dos roteiros é bem diferente. As protagonistas envelhecem, por vezes desejam o que nem sempre é esperado socialmente e, às vezes, se rebelam e, também, se angustiam. Outras vezes se submetem sem controle da submissão ou se descabelam. Quem sabe enlouquecem ou ficam entristecidas. Existem, sim, as que vivem momentos felizes, mas nunca para sempre… Quem sabe, ainda, sentem, como na canção de Cassia Eller, “que o príncipe virou um chato que vive dando no meu saco”, considerando que “talvez, quem sabe a vida é não sonhar”… Enfim, tem roteiro para todas as mulheres do mundo: “Mães assassinas, filhas de Maria, Polícias femininas, nazijudias, Gatas gatunas, kengas no cio, Esposas drogadas, tadinhas, mal pagas” e todo o resto da turma que quer ser amada e feliz, cantada por Rita Lee, em outra canção.

Ou seja, por mais que exista doçura na vida: em relações, momentos, imagens e afetos. A vida costuma ser bem ácida e, ocasionalmente, dura de engolir! As narrativas escritas com mais leveza e alegria, no geral, comportam duas características: a aceitação da complexidade e das ambivalências, e o bom humor nessa aceitação. É o que traz para o palco a peça “Mulheres Ácidas”, em cartaz no aconchegante teatro Eva Hertz. Marianna Armellini e Cristiane Werson (que também assina o roteiro), dirigidas por Cristiane Paoli Quito, durante pouco mais de uma hora, encarnam várias personagens femininas, em diversos tempos históricos, dando conta, do jeito que podem, do material que vai surgindo para que contem suas histórias. Material que surge do acaso, dos encontros, das escolhas, dos sonhos ou do desejo, num movimento, de dentro para fora e de fora para dentro, que não cessa, enquanto a vida não cessa. Ora enternecendo, ora fazendo rir, ora gerando incomodo, “Mulheres Ácidas” apresenta muito do potencial agridoce da existência humana.

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Publicado em 17 de março de 2017 por .
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