Tecendo a Trama

Espaço pra contar histórias e dividir impressões sobre o lido, assistido, inventado, experienciado, cantado ou ouvido. Tecendo a trama do cotidiano.

Documentários – Laerte-se & Vidas Dançantes

Por Ana Lucia Gondim Bastos

A ideia de potencial criativo do ser humano, quase sempre fica no registro do que o faz imaginar, sonhar, lembrar ou de qualquer outra forma elaborar, através de suas condições psíquicas, dissociadas do corpo que tem. Sim, tratamos do corpo como sendo da ordem da biologia, química ou física e tratamos do psiquismo como da ordem da psicologia, filosofia ou sociologia. Ou seja, enquanto o corpo é da ordem das ciências biológicas (muitas vezes tratadas como exatas, para piorar o equívoco), o psiquismo é da ordem das humanas. E assim passamos boa parte de nossas vidas, cindindo nossa existência: separando razão de emoção, corpo de alma, prosa de poesia. Ainda que, antes mesmo da virada do século XX, os Estudos sobre a Histeria, de Freud e Breuer, já apontassem para o equívoco de tais cisões, seguimos insistindo nessa impraticabilidade. Ora, nossas narrativas de vida não são sucessões de fatos cronológicos, encadeados por precisos sistemas causais. Estão mais próximas da prosa poética do que de um minucioso relatório de atividades ou planilha de excel. Da mesma forma, tais narrativas, não residem só nas palavras ou imagens que escolhemos para contar nossas histórias, estão nas nossas cicatrizes, na nossa postura, nos nossos gestos ou no que usamos para enfeitar, esconder ou mostrar o corpo. Estão no cabelo, no jeito e no olhar de cada um. Assim como nas dores, nos prazeres e dissabores. Nossa história está sendo contada, então, o tempo todo, no todo da gente. E, como enquanto a vida não finda, a narrativa de cada história não para de receber novos elementos, a se entrelaçar aos antigos de maneira diversa e dinâmica, esse corpo terá que ser reinventado, tanto quanto qualquer outro aspecto existencial ou identitário. A cartunista Laerte fala disso lindamente no documentário Laerte-se (2017), dirigido por Eliane Brum e Lygia Barbosa da Silva.  Laerte, sem explicações biologizantes ou parapsicológicas, conta de como sua relação com o corpo, com gênero e com o sexo foi mudando no decorrer da vida. Fora um adolescente que preferia ser mulher a reconhecer, em si, desejos homossexuais, mas, seguiu menino e teve três casamentos heterossexuais, filhos e tudo mais de uma vida cisgênero padronizada. Já sexagenária, começou a ter uma identificação de gênero feminina, apesar de não mudar o nome ou de não ter feito nenhuma intervenção cirúrgica ou tratamento hormonal. Contudo, o surpreendente do documentário não está nessa trajetória, que deixa tão evidente nossa condição de identidades metamorfoses, está na possibilidade que Laerte encontra, em sua trajetória, de abrir sua casa ainda em reforma. Sim, durante as entrevistas a casa de Laerte estava em reforma, e ela fala, o tempo todo, do sentimento dos fios que ficam aparecendo pelas faltas de acabamento ou desajustes aparentes. Seja na casa, no corpo ou na sua obra, o sentimento é sempre esse. Enquanto abre as portas da casa, ainda com tanto a arrumar, enquanto se despe na frente das câmeras, com todo incômodo de ter peitos arrancados junto com o sutiã, enquanto fala dos conflitos de seus personagens que vão anunciando as transformações e voos, tantas vezes hesitantes, da cartunista, Laerte nos obriga a olhar para nossas próprias titubeantes escolhas de como contar nossas histórias, questiona tudo sem, no entanto, colocar a casa a baixo.

Com temática completamente diferente, o documentário o francês Vidas Dançantes (2016), dirigido por Fanny Pernoud e Olivier Bonnet, traz à tona, também de forma delicada e nada sutil, a, quase sempre, por nós desconsiderada, indissociabilidade corpo/ subjetividade. Desta vez, a relação do corpo com as necessárias expressões subjetivas que as narrativas humanas comportam, revela-se nas histórias de jovens mulheres que, ao terem membros amputados, passam por intensos processos de ressignificação da vida, das suas possibilidades e limites. Contam como foram lidando com o olhar de estranhamento em relação ao próprio corpo e com a aceitação do inevitável. Até o momento que passam a se perceber capazes de novos movimentos (na vida e com o corpo), criados a partir dessa relação com um corpo que conta uma história que começou bem antes do acidente que o transformou, e que seguirá sendo contada com e nesse corpo.

Depois desses documentários, o provérbio moçambicano que um dia encontrei numa fala de Mia Couto, faz ainda mais sentido: “Quem dança não é quem levanta a poeira, quem dança é quem inventa seu próprio chão”. Tenhamos todos, então, vidas dançantes, talvez seja esse, mesmo, o sentido do imperativo: Laerte-se!

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Publicado em 29 de maio de 2017 por .
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