Tecendo a Trama

Espaço pra contar histórias e dividir impressões sobre o lido, assistido, inventado, experienciado, cantado ou ouvido. Tecendo a trama do cotidiano.

Filme – Hoje eu quero voltar sozinho

Por Ana Lucia Gondim Bastos

Quando chega a adolescência, não raro, as duplas inseparáveis da infância dão lugar a grupos maiores. Novos interesses e comportamentos mais autônomos fazem com que novos personagens passem a fazer sentido na vida do adolescente. Amigos de turma, “crushes”, modelos admirados, admiradores, confidentes, inimizades e todo tipo de fontes de inspiração para as identidades, que passam a ter contornos cada vez mais localizáveis, compõem a Flor da Idade, cantada em verso por Chico Buarque:

“Ai, a primeira festa, a primeira fresta, o primeiro amor (…)

Ai, o primeiro copo, o primeiro corpo, o primeiro amor (…)

Ai, a primeira dama, o primeiro drama, o primeiro amor (…)”.

Não raro, também, é o primeiro amor não residir na dupla inseparável da infância (ainda que a amizade continue firme, na tal flor da idade). E é aí que, também, uma profusão de sentimentos entram em cena: ciúmes, insegurança, rivalidade, tristeza, decepção, frustração dividem o palco com o entusiasmo pelas novas descobertas, a alegria, muitas vezes eufórica, a ansiedade pelo porvir e a coragem para enfrentar desafios. Tudo junto e misturado num corpo que também está em transformação.

“Hoje eu quero voltar sozinho” (Daniel Ribeiro, 2014), trata desses encontros e desencontros na vida de Leo (Guilherme Lobo) e Giovana (Tess Amorim). Desde pequeno, Leo acostumou-se a contar com o olhar atento e cuidadoso da colega de turma. Giovana, por sua vez, acostumou-se com a presença e companhia constante do amigo que, diferente do resto da turma, só ouvia música erudita e não enxergava. Começam o filme contando das suas vidas sem dramas ou romances, mas, em toda história, cedo ou tarde,eles sempre chegam, e o filme se desenrola a partir daí. A entrada de um novo aluno na sala de aula e na dupla, sempre tão fechada e defendida, tira-os de suas zonas de conforto e abre o incomodo espaço do desejo.

Com a entrada de Gabriel (Fabio Audi) que, muitas vezes, esquece que o amigo é cego, Leo coloca em xeque a aparente inevitabilidade da dependência e superproteção. Giovana, por sua vez, que não mais precisa acompanhar o amigo “passo a passo”,  sente falta dessa importância, ao mesmo tempo que precisa se definir para além do rótulo de “fiel escudeira’ de Leo. Gabriel, também começa a ter que olhar para dentro e a entrar em contato com seus desejos e interesses sexuais ao se perceber o novato, alvo de muitos interesses. Num roteiro leve, mas em nada displicente, o filme conta de como “às vezes, é solitário viver” e de como o dia de se dizer “Hoje eu quero voltar sozinho” é importante e decisivo nas descobertas sobre como queremos/podemos protagonizar nossas histórias.

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Publicado em 21 de junho de 2017 por .
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