Tecendo a Trama

Espaço pra contar histórias e dividir impressões sobre o lido, assistido, inventado, experienciado, cantado ou ouvido. Tecendo a trama do cotidiano.

Documentário: Torquato Neto – Todas as horas do fim

Por Ana Lucia Gondim Bastos

A crônica a seguir, de autoria de Torquato Neto, foi publicada em 13/12/1971, no jornal carioca Última Hora, na coluna Geléia Geral que ele assinava, onze meses antes do seu suicídio.

“NA SEGUNDA SE VOLTA AO TRABALHO

Pois eu vou contar uma história.

Sem pé nem cabeça: você sabe com quem está falando? Eu respondi que não e a autoridade se mostrou ofendidíssima. Foi por isso que explicou assim:

– Polícia.

Ora, eu agradeci, mostrei meus documentos, o cara conferiu que tudo era legal e estava em ordem e em seguida iluminou-se:

-Ora, bicho, esse teu cabelo está muito grande.

Aí, eu fui alugar um apartamento para morar. Quem não precisa de um? Quando a gente mora só e tem quem convide, a gente evita o vexame. Mas, quando a gente tem família, o jeito é aquele mesmo: primeiro enfrentar os porteiros desconfiadíssimos para minha cara, enquanto entrega as chaves. Vai a descarta:

-Acho que nem adianta olhar. Parece que está alugado.

Pelo telefone os caras não me vêem, de modo que a informação é batata:

-É conversa do porteiro.

Aí eu fui lá acertar a transa, assinar os papéis e tal. Aí o cara olhou para mim, conferiu muito e decidiu:

-Tem gente na frente.

Aí eu saí na rua. Primeiro na Tijuca, onde as pessoas se divertem olhando. Depois na cidade, onde as pessoas me cercaram na rua da Assembleia e gritavam corta o cabelo dele e tal. A gente pensa: vou tomar muita pancada dessa gente. Eles olham com ódio para o meu troféu. Meu cabelo grande e bonito espanta, espanta não, agride (a tal palavra) e eu me garanto que eu não corto.

História de cabelos…

Um cara suado de gravata, cara de ódio, passa por mim na Conde de Bonfim, cara de uns quarenta anos, cara de pai de família classe média tipico nacional, passa no seu fusquinha e quando me vê dá um berro:

-Cachorro cabeludo.

Inteiramente maluco, o cara. Doido de pedra. Ou não?

Desci do ônibus e sai andando pela Gomes Freire. Vinha uma senhora gorda fazendo compras com um garoto pequeno e um tipo filho com jeitão de funcionário sei lá de quê. De longe, enquanto eu vinha, eles já sorriam e cochichavam tramando. Eu vi. Bem na minha frente os três pararam e a vanguarda do movimento adiantou-se – era o garotinho

-É homem ou mulher?

Eu respondi

-Mulher

O rapazinho, o outro, gritou. Atenção: gritou.

-Cala a boca, cabeludo desgraçado.

A mulher deu uma gargalhada e eu passei.

Inteiramente malucos. Doidos varridos, doidos de pedra. Ou não?

Aí, crianças, a gente declara novamente: são uns malucos. São uns loucos. São uns totalitaristas: cabeludo não entra. São uns chatos, são loucos, totalmente loucos, e perigosos. É assim que são: doidos, malucos, loucos e perigosos. Ou não?”

Assim era Torquato. Piauiense, poeta, jornalista, letrista de música popular, mudou-se para o Rio de Janeiro em 1962, onde atuou como agente cultural e defensor de manifestações artísticas de vanguarda, como a Tropicalia, o Cinema Marginal e a Poesia Concreta. Em parte um experimentador e em parte um teórico desse movimento de renovação artística e social. No início da década de 70 (depois de um breve período morando em Londres, resultado da decretação do Ato Institucional n. 5, AI 5), Torquato começou a ter problemas com alcoolismo e passou progressivamente a isolar-se, afastando-se de diversas amizades. Morreu em sua casa no dia seguinte ao seu aniversário de 28 anos, depois de uma festa, trancou-se no banheiro e ligou o gás. No bilhete de despedida, Torquato escreveu: “(…) Para mim chega! Não sacudam demais o Thiago, ele pode acordar”. Thiago era seu filho e tinha, na época, três anos. Ana Duarte, sua esposa desde 1967, dormia no quarto ao lado e não suspeitava que seu marido estivesse pensando em suicídio. Torquato Neto expressou, durante toda sua vida, assim como no momento de sua morte, uma necessidade muito grande de rompimento com a mesmice, com a repetição do sempre igual, numa resistência ao entediante da homogeneização com seus efeitos domesticadores e um sempre-já lá de significações. É o que nos apresenta, Eduardo Ades e Marcus Fernando, no documentário “Torquato Neto – Todas as horas do fim”(2018), em imagens com efeito de câmera super 8, em registros novos que se misturam com antigos, como se continuássemos compartilhando o tempo histórico e a relação com as imagens e com o tempo (daquele tempo), tempo no qual Torquato sentiu não mais caber com sua cabeleira e ideias libertárias, acabando por romper, de forma deliberada e totalizadora, com o mundo, num movimento de radical desinvestimento na vida. Não viu como continuar a contar suas histórias sem pé nem cabeça e a desenhar novos cenários. Sentiu não haver mais poesia que pudesse oferecer contorno, e chegou a achar mais seguro que Thiago permanecesse dormindo, sem se dar conta do que vinha acontecendo no mundo e em sua casa. Mas, talvez tenha sido assim, saio pensando do documentário,  que se mantenha afirmando/ denunciando que “são uns malucos. São uns loucos. São uns totalitaristas: cabeludo não entra. São uns chatos, são loucos, totalmente loucos, e perigosos. É assim que são: doidos, malucos, loucos e perigosos. Ou não?”. Obrigada, Eduardo Ades e Marcus Fernando por permitirem que a voz de Torquato continue ecoando, nos alertando do perigo de tanta maluquice na intolerância.

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Publicado em 16 de abril de 2018 por .
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