Tecendo a Trama

Espaço pra contar histórias e dividir impressões sobre o lido, assistido, inventado, experienciado, cantado ou ouvido. Tecendo a trama do cotidiano.

Filme – Foi Apenas um Sonho

Por Ana Lucia Gondim Bastos

Tem escolhas de tradução, particularmente, mal sucedidas. Esse, acho, foi o caso de quem optou por “Foi Apenas um Sonho” para o título em português de “Revolutionary Road” de Sam Mendes (2009). Digo isso porque o título em inglês leva-nos por um caminho de escolhas e revoluções, possibilidades e impossibilidades de mudanças, e reviravoltas, nos roteiros da vida, de cada um de nós. Enquanto o título em português parece reduzir-se a um grande spoiler do que acontecerá na vida dos protagonistas, daquele roteiro específico. Mas, o filme é bom e, o roteiro, assim como as excelentes atuações, nos levam à revolutionary road e não à um sonho fugaz, e isso é o que mais importa.

Nele, o casal do badalado  Titanic (1997), Leonardo Di Caprio e Kate Winslet, voltam a atuar juntos, agora, num filme de Sam Mendes, diretor do premiado Beleza Americana (1999). A sintonia dos atores é impressionante, nesse drama, no qual dão vida aos protagonistas Frank e April, desde a época que se conhecem e se encantam um com o outro. Ela uma estudante de artes cênicas e ele um rapaz cheio de experiências e coisas a descobrir (inclusive sobre si próprio). Já casados e à espera do primeiro filho, encontram uma bela casa, bem nos moldes dos subúrbios americanos, para viverem seu  “felizes para sempre”, das famílias americanas da década de 50.  O fato dessa “casa dos sonhos” estar na Revolutionary Road, nesse momento, parece uma ironia (do destino ou do roteiro). Todo aspecto arrojado do casal, parece ter ficado no passado e, é assim, que ele se torna um vendedor convencional, como fora o pai, e ela uma dona de casa ordinária da década de 50. Contudo quando ele completa 30 anos, totalmente consciente e conformado com sua infelicidade cotidiana, April faz uma proposta que pode abrir novos horizontes: mudarem-se para Paris (lugar onde ele sempre idealizou que se viveria com mais verdade e intensidade) e lá, ela passaria a trabalhar para sustentar a família, para que ele tivesse tempo de encontrar seu caminho de realização pessoal e profissional. Essa lufada de ar fresco, na realidade enfadonha e repetitiva do casal, na Revolutionary Road, faz com que tudo mude antes de mudar. Foi a hora da esperança vencer o medo e o brilho na alma parecer voltar. Vizinhos, que já os percebiam como uma família diferente, se admiram e os admiram, apesar de considerar loucura. Uma loucura desejada, e até invejada, mas, loucura perigosa de rompimento com a receita da vida “bem sucedida”, nas rotas possíveis daquele momento histórico. A pessoa que mais parece entender o processo decisório do casal é John (Michael Shannon) matemático, filho da agradável corretora de imóveis da região, que vive parte da vida em um hospital psiquiátrico. É ele que reconhece a coragem que se precisa para fugir da vida vazia e sem esperança, assim como é quem denuncia a covardia de fazer de tudo isso “apenas um sonho”. E é aí que o filme toca a cada um de nós, pois tem um vazio existencial que temos que dar conta como seres humanos que somos. Mas, tem um vazio sem esperança. Um vazio do conformismo, um vazio do medo de ser diferente do que sempre fomos ou do que sempre se esperou de nós (ou, ainda, do que acreditamos que sempre se esperou de nós). Em última análise, o vazio que vem do medo que suplanta a esperança, que faz a gente acreditar que repetir é melhor (ou, pelo menos, mais garantido) que criar. E aí, tanto faz o que se escolha, pois será sempre uma escolha encurvada e resignada…. no pior sentido da resignação. E, aqui, você pode me perguntar: e como saber como estamos caindo nesse tipo de resignação? E eu te repondo: assiste ao filme e repara na última expressão do Di Caprio. É, exatamente, quando nos sentimos daquele jeito. Boas reflexões!

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Publicado em 31 de maio de 2018 por .
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