Tecendo a Trama

Espaço pra contar histórias e dividir impressões sobre o lido, assistido, inventado, experienciado, cantado ou ouvido. Tecendo a trama do cotidiano.

Filme – Perdas e Danos

Por Ana Lucia Gondim Bastos

Em Perdas e Danos (1992), o experiente diretor Louis Malle, incomoda, escancarando a  fragilidade das, aparentemente sólidas, construções  familiares e de carreira de um homem europeu, branco, rico, heterossexual, casados e com filhos, extremamente adaptado às exigências sociais e ditames das medidas de uma vida de sucesso. Anna (Juliette Binoche) é uma jovem inteligente e interessante, filha de diplomata, com uma história de vida marcada por perdas de todas as ordens e lutos mal elaborados. Tal personagem, cujos sérios conflitos psíquicos ficam evidentes desde o início, definitivamente, não é quem traz o caráter inquietante à trama, mas, sim, Stephen Fleming (Jerome Irons), respeitado político do parlamento britânico, casado com a dedicada Ingrid (Miranda Richardson), pai de uma adolescente e de um jovem que começa a fazer carreira no jornalismo, Martyn (Rupert Graves). Apesar do cargo de destaque político, Stephen não se apresenta especialmente seduzido pelo poder ou pelas tentações de rompimento de contratos sociais que tal posição porventura pudesse vir a oferecer. Pelo contrário, aparenta ser um homem bem controlado e correto. Isso tudo, até conhecer Anna, nova namorada do filho. Logo de cara sente-se atraído pela jovem e, correspondido em suas investidas, passa a não medir consequências para promover encontros eróticos, com Anna,  que vão ficando cada vez mais frequentes, na mesma medida em que o namoro de Anna e Mrtyn vai se intensificando e o compromisso entre eles aumentando.  A mãe de Anna, quando conhece o noivo da filha, menciona a semelhança do rapaz com o irmão da moça, morto quando eram adolescentes, o que traz ainda mais o inquietante do suspense oriundo da aproximação dos desejos incestuosos recalcados, tanto no tórrido caso do sogro com a nora, como na evidente falta de controle do sogro na situação sem peias que parece, a cada minuto, prenúncio de tragédia grega. Um filme que nos leva ao inalcançável que faz ser o que somos e de como pode ser rápido o distanciamento do mundo que construímos para nós. Inquietante.

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Publicado em 13 de junho de 2018 por .
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