Tecendo a Trama

Espaço pra contar histórias e dividir impressões sobre o lido, assistido, inventado, experienciado, cantado ou ouvido. Tecendo a trama do cotidiano.

42 Mostra Internacional de Cinema – Shade: entre bruxas e heróis

Por Ana Lucia Gondim Bastos

A fuga de um cenário de  desconforto, de insegurança, de impotência e de medo pelo desconhecido porvir, sempre é possível, pelos caminhos e labirintos da imaginação. Na infância é um recurso, inclusive, bastante frequente e acionado com certa facilidade. Na vida adulta, no entanto,  vamos ficando mais enferrujados, talvez pela fragilidade que nossa crença na magia dos super poderes, vai adquirindo. Ainda assim, na melhor das hipóteses, também podemos substituir tal crença em magias e super poderes,  pela crença no poder que nos confere os vínculos interpessoais, amorosos e de confiança, que cultivamos vida afora.

Nesse contexto histórico, no qual, justamente, o imperativo é o do medo, da insegurança e do desconforto, foi um sopro de ar fresco receber, como surpresa da 42 Mostra Internacional de Cinema, um filme Sérvio que trata, precisamente, do momento de substituição de crenças, sob a perspectiva do olhar infantil.  Shade: entre bruxas e heróis (Miljkovic, 2018), começa contando a história de Jovan, um menino de 10 anos, com paralisia cerebral e severas dificuldades motoras, que, nos raros intervalos de sua rotina de fisioterapias e tarefas escolares, transporta-se para o mundo da imaginação, onde pode voar e, como um super herói, salvar muitas crianças das pressões e injustiças do bullying de outras mais fortes. Apesar de ter uma vida familiar alegre, com pais amorosos, na escola sente-se completamente desconsiderado pelos colegas, com quem não pode dividir o recreio pela dificuldade de descer as escadas para chegar ao pátio. Até o dia da chegada de uma nova aluna que faz com que  precise dividir a mesa e o cotidiano escolar de forma mais próxima. Incomodado com a presença, inicialmente sentida como invasiva, de Milica, vai tendo que se acostumar, inclusive, com suas visitas em casa para brincarem juntos, já que ela também não tem uma adaptação fácil na turma que chegara. A amizade dos dois chega a um ponto de trocarem confidencias e Milica, então, contar do sofrimento que vive desde que uma bruxa enfeitiçou seu pai, desfazendo sua família. Juntos, na empreitada de vencer a bruxa, vão ter que se dar conta que nem todos os obstáculos são transponíveis e que algumas realidades precisam ser enfrentadas do jeito desconfortável e desagradável que se apresentam. Vão ter que se dar conta, também, da fragilidade da confiança em capas mágicas e, por fim, descobrir  a fortaleza dos laços afetivos e a importância deles para enfrentar a vida como se apresenta, sem possibilidade de edições. Uma delicadeza de roteiro!

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Publicado em 22 de outubro de 2018 por .
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