Filme – O Som ao Redor

Por Ana Lucia Gondim Bastos

Qual é o som ao redor do cotidiano da classe média alta brasileira? O som das britadeiras dos trabalhadores invisíveis, o som dos cães de guarda, do trânsito, das construções de prédios e reformas de apartamentos. O som do entra e sai dos empregados dos confortáveis condomínios e residências, assim como, o de seus proprietários que se ocupam em levar a vida surdos aos barulhos da cidade, ou os naturalizando, enquanto seguem tocando atribuições e atribulações de suas rotinas como se pouco, ou nada, pudessem fazer (ou quisessem fazer) para mudar a realidade. Realidade esta que parece não incomodar tanto, os personagens do primeiro longa de ficção de Kleber Mendonça Filho, O Som ao Redor (2013). E quando incomoda, se lança mão de soluções de fácil compra e imediata implementação, que servem como novos tampões de ouvidos: contrata-se seguranças privados para a rua, dopa-se o cachorro da vizinha ou se demite por justa causa o porteiro de longa data . O filme muito me fez lembrar do livro de Luis Antonio Baptista, A Cidade dos Sábios: reflexões sobre a dinâmica social nas grandes cidades (1999). Principalmente, no que diz respeito ao primeiro ensaio, “A Escuta Surda”, que fala sobre as técnicas e objetos psi (mas, que podemos ampliar para vários espaços de produção de subjetividade), cristalizados em espaços privados, que acabam por não proporcionar que descubramos novas formas de solidariedade. “Não a de ‘irmãos’ , fundadas em compactas identidades, no medo e na culpa que assassinou índios, negros e os que transgrediram a Ordem dos corpos e dos afetos, mas uma solidariedade gerada pelas interpelações do diverso e da indignação”. Foi interessante assistir ao Som ao Redor, depois de assistir aos filmes, do mesmo diretor, que o sucederam: Aquarius (2016)* e Bacurau (2019). De todos eles saímos entoando algo como a canção de Geraldo Vandré*:

“Vim aqui só pra dizer

Ninguém aqui há de me calar

Se alguém tem que morrer

Que seja para melhorar

Tanta vida para viver

tanta vida a se acabar

Com tanto para se fazer

Com tanto para se salvar

Você que não me entendeu

Não perde por esperar”.

*https://tecendoatrama.com/2016/09/07/filme-aquarius/
*Réquiem para Matraga, no repertório do Bacurau Show, inspirado na premiada produção cinematográfica de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, Bacurau (2019), apresentado no dia 10 de janeiro de 20202, no SESC Pinheiros/SP

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