Filme – O Despertar das Formigas (série: interlocuções na quarentena)

Por Ana Claudia Gondim Bastos e Ana Lucia Gondim Bastos

Um cotidiano no trabalho de formiguinha dos afazeres domésticos e “costuras para fora” que ajudam nas contas da casa e na garantia de umas poucas miudezas que dão um brilho fugaz à rotina quase sem graça, quase sem voz e quase sem desejo da protagonista Isabel (Daniela Valenciano) de “O Despertar das Formigas” (Antonella Sudasassi, 2019). A produção espanhola e costarriquenha conta a história de uma mulher que, como tantas outras, reproduz em seu caminho a normalidade estabelecida pela lógica do patriarcado. Mãe, esposa e nora dedicada, não deixa transparecer seus desejos ou desalinhos, seguindo padrões de uma família de classe média onde tudo parece bastante razoável. Isabel, por vezes, pode se imaginar perdendo o controle, mas nunca de forma a se fazer notar. Uma mulher oprimida por seu cotidiano de convicções do que deve ser, enclausurada pela impossibilidade de ser. Mais uma mulher que, como em canção do Chico, “não têm gosto ou vontade, nem defeito e nem qualidade, têm medo apenas”. O confinamento à rotina e às possibilidades de modos de ser vão ganhando força nas cenas passadas num calor infernal, aliviado pelo pouco potente ventilador ou pela pouca água fresca da pia. Os longos cabelos, quase sempre presos, de Isabel e de suas filhas, são significantes que também nos remetem ao sempre mesmo caminho das trilhas das formigas.

Um bom filme que pode apresentar especial impacto, neste momento de confinamento, proporcionando-nos identificação com aquela mulher que sente sua vida e desejos íntimos esvairem-se como seus longos fios de cabelo, enquanto os dias se repetem.

No nosso caso, o isolamento social se apresenta como única alternativa para conter uma pandemia jamais experimentada, que chegou sem data para nos deixar. Parte da população se mantém confinada e busca a manutenção de alguma sanidade mental estabelecendo uma “normalidade” de rotina nos mais de 90 dias, imersa numa realidade distópica, em tempos de  enclausuramento com medo do vírus, da crise política, econômica ou do porvir. Seguimos uma linha que não sabemos onde vai dar e prosseguimos na meta de manter um cotidiano tarefeiro, para mantermos a ilusão de posse da convicção do que “deve ser” para viver. Contudo, às vezes, mais conscientes nos deparamos com a constatação da dificuldade de estabelecer estratégias de  como transformar realidades (individuais e coletivas). Com sonhos e planejamentos engessados, seja pelo medo, seja pela realidade que assola e ameaça, buscamos, como aquela mulher, romper pequenos silenciamentos cotidianos para encontrar brechas de respiro para sonhar e poetizar a vida. 

Assim, tentando a ousadia de realização de cortes, pequenas mudanças de perspectiva, que nos tornam mais forte para resistir à queda e, aos poucos, ajudam-nos a voltarmos a nós mesmos, para nossa potência transformadora dentro de nossa estabelecida rotina, mais convictos de nossos desejos ou escolhas. Cuidando para romper, agora e para as próximas gerações, a trilha estabelecida e irrefletidamente de um dever ser que constrange movimentos. Um filme que, ao terminar, nos faz concordar com Mário Quintana quando diz que ” uma vida não basta ser vivida, também precisa ser sonhada”. Do individual ao coletivo, da vida de Isabel para as vidas de mulheres como Isabel.

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