Filme – Alice Através do Espelho

Por Ana Lucia Gondim Bastos

Para Julia e Flora, meninas de olhar atento, sempre prontas a nos mostrar a novidade que o mundo pode representar

Em 1899, no auge de um processo de autoanálise, fundamental para as primeiras formulações psicanaliticas, Freud conta-nos do seu primeiro amor juvenil, numas férias, aos dezessete anos, de volta à cidade natal, de onde saiu, ainda bem criança, por conta da falência do pai. Gisela Fluss era uma moça de 15 anos, filha da família que o hospedou. Quando ela voltou para escola, pois também estava ali de férias, Freud se entregou a devaneios nostálgicos. Diz, ele, “Por longas horas eu passeava sozinho pelos bosques encantadores que reencontrara e passava meu tempo a construir castelos nas nuvens” . Prossegue a narrativa atentando para o que ele mesmo marcou como curioso fato, já que eram jovens com muito futuro pela frente: seus devaneios não eram dirigidos para um futuro promissor, mas, para uma tentativa de corrigir um passado remoto, do qual fez parte de forma bastante passiva (“se a falência não houvesse ocorrido. Se pelo menos eu tivesse ficado ali, se tivesse me tornado grande e forte como as pessoas daquela família, como os irmãos da minha amiga! E se depois tivesse seguido meu pai em sua profissão, se eu a tivesse desposado, ela!”). Tudo isso como se fosse possível modificar o passado, mantendo aquele presente experienciado: “Não tinha a menor dúvida de que, nessas circunstancias que minha imaginação inventava, eu a teria amado exatamente com a mesma paixão”.*

Poucas décadas antes desse texto do jovem Freud, Lewis Carroll (1832-1898), publicara a continuação do seu celebre Alice no País das Maravilhas (1865), intitulado, Alice Através do Espelho (1871). A personagem central, como muitas das pacientes de Freud, era uma moça para quem se submeter aos padrões da época, do que era esperado para uma mulher na Inglaterra vitoriana, não era algo a se fazer sem sacrifício da vida e de seus interesses próprios. Em 2010, Tim Burton levou à telona um novo Alice no País das Maravilhas, numa volta da personagem à terra encantada que já teria visitado na infância. O reencontro com o o coelho atrasado, com a rainha de copas e com o Chapeleiro Maluco, que a acompanha numa saga de auto conhecimento e reflexões existenciais profundas, acontece, no filme de Burton, justamente, quando Alice deve dizer sim ao casamento arranjado, mas, percebe que ali seria a derrocada dela como sujeito de sua própria história.**

Em 2016, O Alice Através do Espelho, vem com James Bobin na direção, Tim Burton apenas na produção e com quase totalidade do elenco mantido (Mia Wasikowska, Jhnny Depp, Helena Bonhan Carter, Anne Hathaway entre outros, por nós, muito conhecidos ). Nesse novo momento da saga de Alice, logo após a escolha pelos mares bravios, como capitã do navio deixado pelo pai, se vê em xeque mate, com todas as suas conquistas correndo alto risco. O ex noivo à frente da associação comercial, outrora encabeçada pelo seu pai, usa todas as estratégias para coloca-la num lugar “possível” para as mulheres da época, que precisavam trabalhar, para manterem as famílias a salvo da miséria, já que não conseguiram bons casamentos. De volta ao país das maravilhas, atravessando um espelho, no auge da falta de caminhos e apoio, Alice reencontra o Chapeleiro Maluco adoecido e , sem contar com a credibilidade dela, cai numa profunda depressão, perdendo a vitalidade e as cores. A protagonista, então, busca voltar no tempo para recontar a história daquele mundo encantado. O tempo como personagem, as explicações de como cada situação e cada personagem foi se estabelecendo, os porquês que a volta ao passado oferece para entendimentos das narrativas, faz com que Alice perceba que não pode mudar o passado, mas pode, sim, aprender com ele. Aprender, para novas possibilidades de futuro, fora do sempre igual do socialmente, e/ou emocionalmente, imposto. Num retorno pro lado de cá do espelho, vemos Alice internada como as primeiras pacientes de Freud, como a louca que não se conforma, que não se contém. É através do olhar de confiança e apoio materno que Alice consegue terminar sua aventura do lado de lá do espelho, resgatar as cores e a legitimidade das percepções do Chapeleiro Maluco e se conformar em reencontra-lo, apenas, nos jardins da imaginação e nos castelos do sonho. E é assim que torna possível, realizar na realidade compartilhada, o que parecia, até então, impossível para uma mulher. Mais ainda, para duas mulheres sem maridos, pois sua mãe segue a filha numa aventura que, até o momento, lhe parecia loucura!

Talvez possamos ousar , aqui, uma aproximação de Alice com Freud, como alguém que, um dia parou de tentar mudar o passado, voltou-se para ele com outros olhos, para novas possibilidades de entendimentos e, assim, fez do futuro um mundo de alternativas e escolhas ampliadas para todos.

*FREUD, Sigmund. Lembranças encobridoras. In: FREUD, Sigmund. Primeiras publicações psicanalíticas (1893–1899). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Volume III

**https://tecendoatrama.com/2015/05/25/filme-de-volta-ao-pais-das-maravilhas/

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