Filmes – Lulu, nua e crua e Quem me ama, me segue (série: interlocuções na quarentena)

Por Ana Claudia Gondim Bastos e Ana Lucia Gondim Bastos

“Deixe-me ir/ preciso andar/ vou por aí a procurar/ rir pra não chorar. Quero assistir ao sol nascer/ ver as águas dos rios correr/ ouvir os pássaros cantar/ eu quero nascer/ quero viver”  Cartola

Simone e Lulu, duas mulheres que buscam traçar seus próprios destinos rompendo com as convenções sociais, em dois filmes franceses que narram de forma delicada e leve as dores e as delícias dessa incursão comprometida com a busca de sentido na vida. O mergulho no desconhecido, o rompimento com padrões e a busca pelo protagonismo da própria história, é o que une as personagens centrais de Lulu, nua e crua, filme da islandesa Solveig Anspach (2013), e de Quem me ama, me segue, do francês José Alcala (2019). 

Lulu (interpretada por Karin Viard), rompe drasticamente com seu de cotidiano que a imobiliza no sempre-igual tarefeiro do papel de mulher/esposa/mãe socialmente estabelecido, a quem não é permitido desejar (na linha do espanhol O Despertar das Formigas, de Antonella Sudasassi, sobre o qual já escrevemos na série interlocuções na quarentena*). Decidida a voltar a trabalhar, Lulu faz uma pequena viagem, até uma cidadezinha da costa,  para uma entrevista de trabalho, na qual é humilhada e ridicularizada pelo entrevistador. Ao perder o trem de volta e tendo que lidar com a aspereza da troca de mensagens com um marido que a desqualifica, resolve, por impulso, ali permanecer por uns dias, sem dar ou receber notícias da vida na qual parecia aprisionada. O resultado é um filme cheio de encontros surpreendentes que vão oferecendo um novo contorno identitário, muito mais satisfatório para a protagonista. Faz lembrar verso de Antonio Machado, “caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar”.

Simone (Quem me ama, me segue, 2013), também no modelo estabelecido de mulher/mãe/esposa, traça um roteiro de busca por caminhos de rompimento com relações que engessam suas possibilidades de  autonomia e livre escolha. Mas, no caso dessa protagonista, não parece existir uma deslegitimação do seu lugar de sujeito desejante. Simone vai fazendo seu caminho ao sair se deslocando de onde encontra amarras e, como diz o título, quem a ama, a segue. Com grandes atuações de Catherine Frot, Daniel Auteuil e Bernard Le Coq, compondo um triângulo amoroso na terceira idade, o filme faz convincente a fala de Milton Nascimento quando diz que “toda forma de amor vale a pena”. Aliás, muito caberia a letra de Paula e Bebeto, na trilha sonora dessa comédia romântica:  

Ê vida, vida, que amor brincadeira, à vera

Eles se amaram de qualquer maneira, à vera

Qualquer maneira de amor vale a pena

Qualquer maneira de amor vale amar

Pena, que pena, que coisa bonita, diga

Qual a palavra que nunca foi dita, diga

Qualquer maneira de amor vale aquela

Qualquer maneira de amor vale amar

Qualquer maneira de amor vale a pena

Qualquer maneira de amor valerá

Eles partiram por outros assuntos, muitos

Mas no meu canto estarão sempre juntos, muito

Qualquer maneira que eu cante esse canto

Qualquer maneira me vale cantar

Eles se amam de qualquer maneira, à vera

Eles se amam é prá vida inteira, à vera

Qualquer maneira de amor vale o canto

Qualquer maneira me vale cantar

Qualquer maneira de amor vale aquela

Qualquer maneira de amor valerá**

Mais duas dicas de filmes à disposição no Festival Varilux de cinema francês em casa.

*https://tecendoatrama.com/2020/06/22/filme-o-despertar-das-formigas-serie-interlocucoes-na-quarentena/

**https://www.youtube.com/watch?v=H__50WAt5G4

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