Filme – A arte de Amar ou A Vulva, o Clitóris ou outras formas de criar mundos

Por Adriana Domingues, Ana Lucia Gondim Bastos e Jaquelina Imbrizi

“as palavras escorrem como líquidos

lubrificando passagens ressentidas”

Ana Cristina Cesar

Inéditos e dispersos, 1970

Apesar do título cafona e bem açucarado, o filme A Arte de Amar tece uma narrativa sobre a biografia da interessante Michalina Wisłocka, médica ginecologista, citologista, sexóloga e defensora dos direitos reprodutivos na Polônia, em pleno regime comunista. A narrativa se inicia no final da década de 1930, quando Michalina casa-se aos 18 anos com o biólogo Stanislaw Wislocki, em Varsóvia. Acompanha sua trajetória profissional no atendimento de mulheres em busca de tratamento para a infertilidade, métodos contraceptivos, aconselhamento materno e planejamento familiar. Também retrata o cuidado que dava à saúde sexual de suas pacientes, ensinando-as, ao som de jazz, a se tocarem como se dedilham as notas no saxofone. Expõe, também, a mistura que faz entre os espaços profissional e íntimo, ao apoiar uma de suas pacientes a dar um basta nas violências físicas perpetradas por seu companheiro dentro da sua própria casa, utilizando técnicas que associa às delícias do prazer grego!

Vive, sob o mesmo teto, uma relação amorosa com seu marido e sua amiga da infância, Wanda. Nesta relação, Michalina recusa as funções impostas às mulheres casadas de se dedicar às tarefas domésticas, resolve sua falta de prazer sexual com o marido, “oferecendo” sua melhor amiga a essa tarefa. Neste pacto, a amante assume as tarefas domésticas e sexuais, enquanto o marido assume o papel do bom e compreensivo provedor. Caberia à Michalina, a esposa, ser exclusivamente amada e agarrar-se à possibilidade de construir sua carreira profissional disputando suas ideias no espaço acadêmico tão masculinizado. Assim, o seu assunto com o companheiro são a atualidade ou não das pesquisas da área de trabalho comum aos dois e a discussão sobre o tema do último artigo publicado na revista científica que assinam juntos. Mas,  não é assim que a história se desenrola até o final.

Em certa cena, Michalina atribui sua dificuldade sexual à maneira bruta com que o marido a tratou na primeira vez que transaram, o que agravou suas inibições para obter satisfação erótica (fato confirmado por sua filha, na vida real). É somente quando conhece Jurek que descobre o prazer sexual, aprende a conhecer o corpo e a estimulá-lo, buscando atingir o orgasmo.

A ênfase do filme recai sobre os preconceitos e tabus em torno da publicação de seu livro, subversivo por defender a liberdade sexual e o prazer erótico em sua especificidade feminina, e escancara a contradição destinada aos papéis das mulheres nos movimentos da esquerda daquela época. A censura ao seu livro se faz em relação a inúmeros incômodos provocados por suas orientações e ilustrações – do uso excessivo da palavra “falo”, do incentivo ao uso de métodos contraceptivos para que as mulheres tivessem liberdade de escolher o melhor momento para terem filhos, das ilustrações de diversas posições sexuais que produzem prazer na mulher e da defesa ao direito ao orgasmo clitoriano e genital  – capítulo que a censura quer manter fora do livro. Todos os incômodos se dirigem à liberdade da mulher explorar os prazeres e as decisões sobre seu corpo e recusar-se à submissão masculina que o objetifica.

O título do livro dá nome ao filme. Publicado em 1976, contou com mais de 7 milhões de cópias vendidas e 13 edições, e foi considerado o primeiro guia sexual escrito e publicado em um país comunista.

Disponível na Netflix, o filme é dirigido por Maria Sadowska e conta com a interpretação de Magdalena Boczarska no papel de Michalina. Não se trata de um dos melhores representantes da sétima arte. O filme parece ter sido produzido para a televisão e tem produção precária, do figurino até o lencinho utilizado pela protagonista. Mas, o tema é instigante demais e se transforma em um produto de reflexão sobre a negação e recusa da potência de vida que exala do órgão sexual feminino.  

Na resenha de Lígia Maciel Ferraz (2018), há uma interessante reflexão sobre alguns fatos importantes que foram relatados por Krysia, filha de Michalina, antes do lançamento do filme, mas não foram incorporados ao filme pelo roteirista Krzysztof Rak. Como sugere, o fato do roteirista ser homem pode ajudar a entender algumas situações que foram romantizadas, como a bissexualidade revelada na relação triangular amorosa e não a relação abusiva que vivia com seu marido; ou sua importante atuação como defensora de métodos contraceptivos no controle reprodutivo, chegando a testá-los em si mesma, resultando em três gestações e, consequentemente, três abortos. A história não apenas teria sido outra, mas abordaria pautas mais femininas e feministas, como o controle psicológico do ex-marido, suas dificuldades em relação à maternidade e sua discussão em relação ao aborto.

O que nos interessa aqui é a pergunta: por que falar do prazer sexual feminino provoca tanto incômodo? 

Eduardo Galeano, ao se referir à história da jovem Juana Ines de Asbaje, faz menção à história de um sino que perdeu o badalo, foi calado, por um dia ter tocado por conta própria, e expulso de uma velha aldeia espanhola para se exilar no México. Juana é aquela que se tornou freira, para seguir seu caminho de poetisa, dramaturga e filósofa da Nova-Espanha, já que “quisera estudar na universidade os mistérios do mundo, mas as mulheres nascem condenadas ao quarto de bordar e aos maridos que as escolhem”. Descreve Galeano: “Tocava solto o sino, desatado pelo alarma ou pela alegria ou sabe-se lá porquê, e pela primeira vez ninguém entendeu o sino. (…) Nenhuma mão o movia. As autoridades acudiram à Inquisição.  (…) foi castigado por cantar por conta própria”. Assim como muitas mulheres foram torturadas, mortas ou tiveram seus caminhos determinados pela Santa Inquisição que tinha o poder de domesticar corpos e pensamentos para a manutenção do status quo.

Michel Foucault, em História da sexualidade I: a vontade de saber (1988), descreve como a sociedade moderna depurou a linguagem sobre o sexo e a sexualidade, condenando-nos não apenas à sua obscuridade, mas à valorização de uma fala ininterrupta e “secreta” sobre as formas como a sexualidade é vivenciada por aquele que a enuncia. Considera a sexualidade como um dispositivo capaz de produzir análise sobre as formas como se governam e conduzem os corpos e modos de vida. Ao analisar as transformações no campo da sexualidade, produz-se visibilidades e enunciados sobre uma determinada forma de subjetivação que se impõe na sociedade moderna, desde que o prazer e a erótica (ars erotica) se transformaram em problema médico e psicanalítico (scientia sexualis). Manuais de educação sexual passaram a ensinar jovens sobre a função anatômica e reprodutiva de seus órgãos sexuais, para assim evitarem a masturbação; diagnósticos como “histeria” e “perversão sexual” passaram a descrever mulheres e homens com comportamentos e desejos sexuais incontroláveis; terapeutas e padres passaram a ocupar o lugar onde o sexo pode ser confessado, já que este passa a ser reservado à intimidade do casal (heterossexual, claro!).

Falar abertamente sobre sexo não significa vivenciá-lo com a mesma facilidade. Muito pelo contrário! O que interessa a Foucault não é tanto o sujeito que porta este enunciado (ou qualquer diagnóstico), ou mesmo o que esse enunciado sugere sobre ele e a maneira como se relaciona com o mundo. Para ele, o que importa é a função que esse sujeito ocupa no discurso, isto é, o lugar e a posição que exerce segundo o conjunto de enunciados que o cercam – um sujeito que é visto e falado pela forma como se configuram os jogos de saber e poder de cada época. O problema que interessa a Foucault é quem determina o que se vê ou se faz ver e o sujeito que pode ver e falar sobre o que se vê. 

Nessa proposição, o filme retrata o silêncio imposto à defesa do prazer sexual feminino, sob o domínio do discurso machista. Interessa-nos entender aqui, muito mais o discurso contra a sexualidade feminina e tudo o que ela pode representar de ameaça aos jogos de poder entre os gêneros nas relações sexuais heteronormativas, núcleo fulcral da organização patriarcal das sociedades.

Questionar a construção da sexualidade significa compreendê-la a partir das relações de poder que a conformam em cada período da história e em cada contexto socioeconômico e cultural. E, em todos esses momentos, o que temos é a dimensão erótica tomada a partir do modelo masculino: a valorização do falo e a representação hierárquica das relações eróticas entre os sexos. O sexo é, assim, produto de uma economia reguladora que suprime a multiplicidade de formas de vivenciar a sexualidade e impõe uma função reprodutiva e médico-científica, sustentadas por convenções culturais heterossexuais e fálicas (Butler, 2003). 

Seria a negação da sexualidade feminina uma forma de atuação sobre os e nos corpos das mulheres, como forma de torná-los dóceis e disciplinados? Seria a compreensão da sexualidade centrada na masculinidade tradicional (androcentrismo ou falocentrismo), pautada exclusivamente em discursos e orientações masculinas que se tornam guias para as mulheres em geral? Ou, seria o prazer sexual feminino, a descoberta do clitóris e a defesa ao direito ao orgasmo ameaças a essa heteronormatividade imposta? 

Em outras palavras, por que a vulva e o prazer sexual feminino provocam horror? 

Pergunta parecida foi feita por Eliane Brum (2012) ao analisar as reações de incômodo ao quadro A origem do mundo (L’Origine du Monde, 1866), de Gustave Courbet. Apesar de Brum referir-se à imagem no quadro como vagina, o pintor retrata o corpo estendido de uma mulher nua com sua vulva exposta em primeiro plano. Em suas pesquisas, Brum percebe que, desde o início, o quadro só teria sido exposto para alguns poucos privilegiados. Inicialmente, teria sido instalado em um luxuoso banheiro, atrás de uma cortina que só se abria para poucos. Após passar por vários donos e, ao que parece, ter sempre permanecido escondido, chegou às mãos de Jacques Lacan, que também o ocultava atrás de outra pintura e só o revelava a visitantes muito especiais a quem gostava de surpreender deslocando o painel. 

A alusão à vulva como sendo “a origem do mundo” também é feita por Liv Strömquist em seu livro A origem do mundo: Uma história cultural da vagina ou a vulva vs. o patriarcado. Desde os gregos, passando pelos contos de fadas até chegar nas teorias científicas mais difundidas, a autora percorre a construção histórica e social do sexo feminino e a culpabilização do prazer como uma forma de dominação e invisibilização da potência de vida presente neste pequenino órgão feminino. Minúsculo até 1998, ano em que, claro, uma mulher e pesquisadora, Helen O´Connell revelou: “que a cabeça do clitóris é apenas a ponta de um iceberg e que o próprio órgão na verdade tem um comprimento de sete a dez centímetros e possui duas pernas que se estendem para trás abraçando as laterais da vagina. O órgão inteiro se dilata ao ser estimulado” (STRöMQUIST, 2018, p. 79).

Clitóris: uma aula de anatomia de um órgão bem especial. Imagem: Priscila Barbosa/Universa

É inacreditável e inadmissível que a recusa deste órgão tenha perdurado durante tanto tempo na história da humanidade. Com exceção de algumas tribos que cultuavam a vulva de modo que tocar sua réplica poderia garantir bons presságios. Cabe ressaltar que o livro de Shere Hite, lançado na década de 1970, “quase chegou lá” (com o perdão do trocadilho, rsrs), ao abrir as comportas das discussões sobre a satisfação sexual das mulheres. O livro intitulado O Relatório Hite sobre sexualidade feminina abriu brechas para discussões mais arejadas a respeito do corpo feminino, do desejo das mulheres e ampliou o debate sobre o feminismo. 

O prazer vaginal tão valorizado por algumas mulheres e alguns homens, inclusive, infelizmente, por Sigmund Freud, atrelou a felicidade da mulher ao orgasmo vaginal e a sua maturidade plena ao exercício da maternidade como ideal de complementaridade referenciado no modelo de satisfação masculino. No texto O fetichismo, de 1927, o clitóris é comparado a um pênis diminuto. Nas palavras do Doutor Freud: “Por fim, pode-se dizer que o modelo normal do fetiche é o pênis do homem, assim como o do órgão feminino é o pequeno pênis da mulher, o clitóris”. Ah, nos poupe, até tu, Sigismundo!!!! Justo o senhor que foi capaz de descobrir as normas do século XIX e suas restrições em demasia se comparadas à imensidão do desejo por trabalho e liberdade das mulheres que tu curastes pela fala. Até tu foi capaz de “recusar” a importância de um órgão pulsante e tão potente presente na anatomia das mulheres!

Portanto, mulheres do mundo, e do nosso Brasil varonil, gritem em uníssono: VIVA A VULVA! Abaixo o estranhamento e o horror! Há beleza com ou sem penugem para encobri-los: Clitóris e Vulva – CLIVULVATÓRIS. 

Vamos à luta para mostrar que clitóris não é pênis em miniatura, que vagina e vulva são coisas diferentes e equidistantes, apesar das cirurgias estéticas artificiais que tentam “embelezá-las” e aproximá-las anatomicamente com vistas a prazeres impostos pela sociedade falocêntrica. Strömquist (2018, p. 76) conta que a princesa Marie Bonaporte se submeteu a vários procedimentos cirúrgicos na tentativa de aproximar a vagina do clitóris com vistas a atingir o orgasmo vaginal. Ela tinha a ilusão de que “era mais fácil empurrar cirurgicamente seu próprio clitóris do que simplesmente empurrar a mão do príncipe Jorge”.  

Então, vamos dar vários empurrõezinhos no sentido de espraiar a ideia de que até o orgasmo vaginal depende do clítoris, que agora revelado e circunscrito, pode e deve pautar as discussões sobre o prazer das mulheres seja com parceiras, parceiros e parceires. Ou, como na canção “Essa mulher”, de Arnaldo Antunes, que narra as possibilidades de fruir prazeres solitários advindo, de toques suaves e certeiros, das próprias mãos das mulheres: “ela goza com o sabonete e não precisa de você; ela goza com a mão e não precisa do seu pau. Ela quer viver sozinha sem a sua companhia e você ainda quer essa mulher”.

Vamos juntas e com muito mais amor, por favor!

Façamos amor e não a guerra!

Referências:

ANTUNES, Arnaldo. Essa mulher.

BRUM, E. Por que a imagem da vagina provoca horror? Revista Época, 18/06/2012. Disponível em:  http://elianebrum.com/opiniao/colunas-na-epoca/por-que-a-imagem-da-vagina-provoca-horror/

BUTLER, J. Problemas de gênero: Feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

FERRAZ, L.M. A Arte de Amar: a biografia da sexóloga Michalina Wislocka (parte 2). Blog Ladies, wine & a bit of Design Floripa. Publicado em 15/08/2018. Disponível em: https://medium.com/ladieswinedesignfloripa/a-arte-de-amar-a-biografia-da-sexologa-michalina-wislocka-parte-2-f374f47f0626.

FREUD, S. O fetichismo (1927). In: SOUZA, P. C. de (Org.). Obras Completas. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

GALEANO, E. Amares. Porto Alegre: L&PM, 2019.

FOUCAULT, M. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988.

STRöMQUIST, A origem do mundo: Uma história cultural da vagina ou a vulva vs. o patriarcado. São Paulo: Quadrinhos na Cia, 2018.

Créditos da imagem: https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2019/12/05/clitoris-11-coisas-que-todo-mundo-deveria-saber-sobre-esse-orgao-especial.htm

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