O tédio, a alta performance e o medo do fracasso no filme “Druk – mais uma rodada ”

(contém spoiler)

Por Adriana Domingues, Jaquelina Imbrizi, Ana Lucia Gondim Bastos e Julia Bartsch

“Aventurar-se causa ansiedade, mas deixar de arriscar-se é perder a si mesmo. E aventurar-se no sentido mais elevado é precisamente tomar consciência de si próprio.” (Soren Kierkegaard)

Primeiro, vamos iniciar com notas pessoais das autoras do texto, sem identificá-las, e sim vamos misturá-las como na feitura de um bom coquetel. É interessante ver como o álcool faz parte de nossas existências de uma forma ou de outra. Enquanto eu via o filme, lembrei-me de dois episódios da minha vida. 1) Quando eu estava na primeira faculdade que fiz (me formei em outra área, para só 8 anos depois estudar psicologia, que era o que eu sempre quis, afinal), antes das provas, eu e uma colega íamos ao bar encher a cara. Funcionava!; 2) A cena do garoto ao ver o pai caído na frente da casa dos vizinhos remeteu-me à primeira e única vez em que vi meu pai bêbado. Eu devia ter uns 9 anos. Fiquei hiper impressionada, não tinha sido legal ver meu pai abraçando a privada (embora eu mesma tenha feito isso algumas vezes na vida mais tarde). No dia seguinte, eu estava meio amuada e ele falou que era brincadeira. Eu não acreditei. Ontem, conversando sobre esse episódio com minha mãe, ela me contou que tinha sido um dos dias mais felizes da vida dela. Meu pai, que era muito fechado, tinha se aberto loucamente, dito mil coisas que tinham deixado minha mãe encantada. 

E quando eu, enfim, fui estudar psicologia, um professor disse: O superego é solúvel em álcool! Nada mais verdadeiro. 

Nota pessoal dois: na minha família também, eu acho que há um uso excessivo de álcool, meus pais sempre beberam aos domingos e durante a semana. Pai açougueiro e o almoço com churrasco no domingo era regado a velha cervejinha e uma boa pinguinha às vezes transformada em caipirinha de limão. Eu já tive porres homéricos durante a adolescência e na faculdade. Nascida em uma pequena cidade do interior, eu sempre fiquei admirada com a quantidade de bares que circundam a cidade e sempre fui acompanhada por amigos beberrões. Então, eu compartilho da ideia de que a diversão sempre está associada à bebida alcoólica no meu cotidiano, quem não se utiliza deste subterfúgio é considerado estranho ou “nerd”. E pensando aqui, os meus primeiros encontros com parcerias sexuais “precisam” estar regados a álcool ou outras drogas, com o intuito de diminuir inibições e eventuais constrangimentos nos enlaces afetivos.

Nota pessoal três: Tanto na família materna nordestina, quanto na família paterna nortista, o excessivo consumo de álcool é marcante, e super valorizado, nos encontros familiares, sempre em clima de grande festa. Nos convites para qualquer encontro é o anúncio da presença da bebida alcoólica que fala da importância atribuída e do prazer envolvido: “já estou com a cerveja gelando para te esperar”, “comprei um vinho especial para você”, ou em reuniões maiores, “o barril de chopp está garantido!” e por aí vai. A alegria é expressa, na minha cultura familiar, pelo som de uma rolha saltando de uma garrafa ou do gás escapando de uma latinha quando aberta. Nesse período de isolamento social, forçado pela pandemia, uma caixa de vinho sempre foi encomendada antes que a próxima acabasse, quase como um compromisso de saber que haverá motivos de celebração aos finais de semana. Aliás, o grupo que assina a autoria deste texto, e que já se reuniu para tantos outros, durante essa pandemia que parece não ter fim, começou com a proposta de noites de vinho e cinema no zoom. 

Nota pessoal quatro: na minha família, constituída sob uma forte influência religiosa de origem protestante, a bebida sempre foi considerada pecado, um vício que deveria ser evitado durante toda a vida. Vinhos, cervejas e caipirinhas só passaram a fazer parte das festas familiares quando os filhos se tornaram adultos e passaram a decidir o que iam levar para beber. Resultado: pais tensos com filhos tão à vontade! Mal-estar que foi sendo vencido pelo tempo e pelas muitas doses de bebidas alcóolicas compartilhadas nos costumeiros churrascos e celebrações de datas especiais. A presença da bebida se tornou tão familiar e esperada que até passou a exercer função interessante nestas cenas –  ajudar a “soltar a língua”. Depois de beber um ou dois copos de caipirinha milagrosa, as mulheres começam a contar fatos e histórias mal resolvidas do passado, surgem até mesmo alguns segredos familiares que precisaram de muito teor alcóolico para serem revelados. Santa bebida!

Agora, vamos lá, sobre o filme:

Druk é um filme dinamarquês do diretor Thomas Vinterberg (o mesmo dos primorosos Festa de Família e A Caça), lançado em 2020. Traz o legado do Dogma, uma câmera trêmula e com pouco enquadre nas mãos do diretor, o que para o tema foi interessante porque não foi necessário que os atores produzissem uma voz pastosa, é o enquadre que produz a sensação mareada. 

O álcool, exceptuando países geridos sob severas leis islâmicas, está entre nós. Está nos encontros sociais, como a cena da comemoração de aniversário entre amigos no restaurante. Ali, não está meramente nos copos sobre a mesa. Cada bebida é apresentada como um verdadeiro tesouro. A cerveja, a vodka, o vinho, a champanhe (que pode tanto ser uma palavra masculina como feminina, optamos por sua feminilidade)… Martin (protagonizado pelo excelente Mads Mikkelsen, também presente em “A Caça”) está desbotado, ausente. Sua história parece tão sem sentido quanto suas confusas aulas de história. Ele recusa beber, até ceder à insistência de seus 3 amigos, o aniversariante da noite e professor de psicologia, Nikolaj (Magnus Millang), o professor de música Peter (Lars Ranthe) e o velho professor de educação física Tommy (Thomas Bo Larsen). A vodka, apresentada como uma preciosidade, parece abrir o baú de Martin e vemos seus olhos se marejarem. É criado o bom motivo para que todos bebam ainda mais. Os amigos saem pelas ruas inebriados pela ação das bebidas, festejam como há tempo não faziam. E então, amparados na tese em que todo ser humano nasce com um déficit de taxa alcoólica de 0,05%, iniciam o que seria um suposto experimento científico, tomando por base o princípio do escritor Ernest Hemingway: beber durante o dia até às vinte horas da noite, inclusive em horas de trabalho, enquanto resultados do experimento são registrados, na tentativa de proporcionar um fundo científico ao que se faria a seguir. 

Freud, em O Mal-estar na Cultura (1930), escreve: “A ação das substâncias entorpecentes na luta pela felicidade e no afastamento da miséria é a tal ponto apreciada como um bem-estar que indivíduos, assim como povos, reservaram-lhe uma posição sólida em sua economia libidinal. Somos agradecidos a elas não apenas pelo ganho imediato de prazer, mas também por uma porção ardentemente almejada de independência em relação ao mundo exterior”. Freud ainda nomeia tais substâncias como “destruidores de preocupações”, então, inibidores das tensões do conflito constante, que a vida supõem, entre as exigências pulsionais e as da realidade compartilhada no tal “mundo exterior”.  O filme nos leva à reflexão de como a consciência pode ser aprisionante, com seu  malabarismo para dar conta da pressão vinda  tanto das exigências pulsionais, quanto das superegóicas somadas às  exigências do mundo externo. O alívio desse mal-estar na cultura com o estado alterado de consciência que o álcool pode promover, sem dúvida, é muito prazeroso. Contudo, a sensação de perda da consciência, num estado de vigília, pode, por outro lado,  ser extremamente angustiante, ao nos levar a repetições e ao encontro de um aspecto mortífero e obscuro de nós mesmos.

Considerando as distintas realidades de cada um desses protagonistas que estão exercitando o papel de professores, o álcool vem também servir para este fim no sentido de tirar o peso da monotonia da vida. A busca por afastar preocupações e infelicidades convida o grupo de amigos a aumentarem a dose, e registrar tal feito como parte do experimento. Até onde é o limite. Eles descobrem que não há um limite em comum para todos. Eles saem do ponto de controlar as doses e o tempo para se aventurarem a perder o controle. Não haveria mais limites, ou não trabalhariam mais no sentido do teste dos limites. O que poderiam registrar sobre mais essa experiência. O que vemos a seguir é um primeiro momento de uma verdadeira farra etílica noite adentro para que cada um acordasse em sua própria realidade. E cada um, a seu modo, dessa realidade se ressente, o que pode provocar também o ressentimento em quem está mais perto.

A experiência fica em suspenso e para delinear como resultado o fato de que ela causaria algo comum a quem perde o controle e se deixa controlar pela bebida: o alcoolismo, mas seus resultados seguirão ressoando nas existências de cada um. O que cada um toma, para além do álcool, é uma espécie de revisão de suas vidas, onde cada um encontrará uma solução diferente. 

Podemos dizer que é um filme que fala sobre o desencantamento da vida e o sentimento de tédio que é produzido em sujeitos que vivem em uma sociedade que exige altas performances e produz elevadas exigências para que cada um seja o melhor em seu campo de atuação, o chamado “self made man”. Ou seja, é uma cultura avessa à fragilidade humana e que exige que cada um  enfrente os desafios sem “fraquejar”. Em um país tão diferente do Brasil, pelo clima e pelo alcance de mais equidade econômica para os nascidos nele, a bela Dinamarca (berço do cinema alternativo de Lars Von Trier e Susanne Bier) mostra a falta de perspectivas de vida quando “quase tudo” está milimetricamente organizado. 

Podemos também dizer que é um filme que ecoa a necessidade de o sujeito “parecer” feliz a qualquer preço, a obrigatoriedade da alegria e de se estar bem sempre bem e sem deslizes na sociedade da alta performance. Talvez, por isso, constranja tanto o telespectador a cena em que um deles aparece alcoolizado em uma reunião de professores, literalmente cambaleando e mostrando que é muito difícil se equilibrar sozinho no mundo. Uma cultura que não suporta o contato com o vazio, a intempérie humana e daí advém a necessidade dos excessos de objetos, bebidas e atividades ao adquirirem a força, sempre precária, para tamponar o sofrimento. O excesso de bebida alcoólica no filme parece explicitar essa correlação.

Quanto ao estupendo ator, Mads Mikkelsen, há a cena final, um plano sequência de passos de dança com a bela canção que em sua letra pergunta para nós “O que é a vida?” como se estivéssemos todos presos a uma adultescência, a uma errância de quem não quer crescer e que precisa enfrentar a dura realidade da existência sob as demandas de alta performance. Só um super-herói bailarino para estar à altura desta sociedade, e do malabarismo que ela exige, será? 

O corpo de Martin dança, abraça, rola no chão, salta sobre os bancos, mistura-se aos corpos dos estudantes e à juventude que dela transpira. A canção ao fundo continua a nos indagar: “Não quero me preocupar com nada, mas me apavora estar do outro lado. Quanto tempo até enlouquecer?”. Se é assim que estamos vivendo – entre o esquecimento da juventude e o tédio da vida adulta, não é assim que precisamos continuar a viver. Cada ciclo da vida tem a juventude correspondente a ele, por isso, há sempre a necessidade de escapar das capturas que tornam a vida adulta tão entediante, mesmo que para isso precise de 0,05% de álcool para ficar mais disposto, aberto e musical. Não se trata de beber até o ponto de não conseguir falar, mas até destravar a língua e os afetos que pedem passagem a cada momento. O filme nos faz refletir que, para dançar a vida, é preciso sair do controle, se relacionar com a possibilidade do fracasso e aceitar a si mesmo como sujeito falível.

No que se refere ao ambiente retratado no filme, e ao roteiro proposto, a instituição escolar do ensino médio, os estudantes estão tensos neste momento de passagem do curso preparatório para a escolha profissional condicionada à aquisição de uma boa nota para que sejam admitidos em uma universidade classificada em ranking de excelência. Em ação temos o protagonista Martin, por um acaso um brilhante professor de história no passado de sua trajetória profissional, mas que no momento, retratado no filme, ele aparenta, na bela interpretação de Mads, estar cansado da guerra e também está em uma fase de transição, a crise da meia idade. A expressão do ator quando entra na escola, na sala de aula é de tristeza e falta de sentido em sua profissão. Ele, ao ser questionado pelos estudantes sobre a necessidade de mais conteúdo e mais dinamicidade das aulas, é obrigado a se deparar com carreira em franca decadência que poderia ter deslanchado, mas não deslanchou. Na vida familiar já não há diálogo em casa com a esposa e o casamento parece sobreviver à necessidade de manter o cuidado com os filhos. Quantas vezes Martin tenta entabular um diálogo com Anika (Maria Bonnevie) e não há tempo para olhares, o toque e as trocas de palavras. Aqui está às vistas do espectador, e ao mesmo tempo, tanto as exigências de alta performance no ambiente profissional, quanto o sentimento de tédio na vida familiar. A questão que não quer calar: por que o amor é corroído pelo cotidiano e arrastamos relacionamentos por inércia, conveniência e em nome do amor aos filhos e dos ideais de família em pleno século XXI? Os estudantes e suas figuras parentais cobram mais rapidez e mais conteúdo do nosso entediado professor que encontra no álcool uma resposta e o efeito nele e nos estudantes é impressionante. 

Da perspectiva dos estudantes, temos um aluno ansioso com muito medo de não conseguir a nota necessária e recebe a ajuda do professor de música, que é atencioso e carinhoso para com ele e  o aconselha: talvez, se arriscasse a beber um pouco de bebida alcóolica antes das provas oral e escrita ele se sentiria menos tenso. Sob o efeito de um pouco de álcool, o estudante comprova a teoria do professor, e disserta sobre o tema da filosofia que foi indicado para sua prova oral: que ele explane sobre o tema fracasso. Ao ser questionado por um dos examinadores sobre se conseguiria dar um exemplo de medo de fracassar, o estudante apresenta uma situação de fracasso em sua própria trajetória de vida. Está aí a angústia vinculada ao medo difuso de ser reprovado no exame, de não ser aceito em um grupo e de não se sentir pertencente ao mundo. Sentimento que é comum em jovens (e adultos?) inseridos em uma sociedade que individualiza o sujeito e coloca cada um como empreendedor de si mesmo. Neste sentido, o fracasso é visto como individual, centrado na solidão do sujeito, que não pode se mostrar dividido e, sim, tem que se apresentar como indiviso, sempre a postos, sempre inteiro, sempre feliz para enfrentar e percorrer a corrida de obstáculos que se transformou a vida dos humanos sob o Capitalismo Tardio. 

Assim, é possível afirmar que o roteiro do filme não apresenta juízos de moral sobre o uso abusivo do álcool, só mesmo presente no discurso da diretora da escola após encontrar garrafas vazias nos lixos da instituição escolar. Mas para o telespectador e telespectadora atentos (as) há uma crítica mordaz à forma como organizamos a nossa vida na sociedade capitalista ao produzir tanta ansiedade e sofrimento em sujeitos nascidos e criados para serem os melhores nas competições que os acompanham do nascimento até o fim da vida. São homens e mulheres que acabam por esquecer os pequenos gestos de atenção e carinho no convívio e  no cuidado com quem se ama.

Vemos que a aventura etílica passa a interferir na vida dos protagonistas. Porém, o impacto é absolutamente distinto para cada um deles (Alerta para spoilers). Martin, ao menos num primeiro instante, parece recuperar o vigor de vinte anos antes, tanto nas aulas de história que passam a ser mais divertidas, como na relação com a esposa. Nikolaj se alivia das responsabilidades relacionadas à criação de três filhos pequenos (durante o jantar de aniversário, menciona que há anos não dorme. O veremos dormir em duas ocasiões). Peter traduz seu comprazimento na condução entusiasta de seus alunos de música e chega a aconselhar um aluno a ingerir álcool antes do temido exame final para ‘relaxar’ e, por fim, Tommy, um homem deixado pela esposa e que cria um cão doente, que se afunda na experiência, como veremos, mais à frente, ele mergulhará na sua solução final. 

Por sua vez, a atuação de Mads Mikkelsen, já tem o nosso reconhecimento por sua brilhante atuação apresentada na flexibilidade de seu corpo que salta todos os obstáculos com uma lata de cerveja  em uma das mãos em meio a um grupo de pessoas composto por formandos, seus amigos, uma orquestra às bordas de um rio. Infelizmente, não foi indicado ao prêmio de melhor ator, apesar de estar em todas as entrevistas internacionais na companhia do diretor que, ele sim, venceu o Oscar de 2021 para melhor filme estrangeiro.

Cabe destacar que em entrevista, tanto o diretor quanto o ator mencionam que há uso abusivo de álcool na vida social da Dinamarca e que havia a proposta de colocar a questão em foco no roteiro do filme. Tanto que há cenas incluídas no longa, que fazem referência às grandes figuras públicas, como presidentes e chefes de Estado, que aparecem revelando o excesso de álcool no sangue em cenas hilariantemente reais. 

Há também uma história triste de bastidor, uma tragédia da vida real do diretor que perdeu a filha adolescente em um acidente de carro. O luto foi compartilhado com os amigos da jovem e com a equipe de produção, já que muitos atores que interpretaram os estudantes no longa foram colegas de turma dela que também estava escalada para atuar no filme. Aliás, o mote para o roteiro, veio de uma conversa do diretor com a filha ainda viva, que contava sobre as bebedeiras homéricas dos jovens durante os finais de semana e que se referem às primeiras cenas apresentadas para o telespectador no filme Druk. 

Se a vida imita a arte, cabe o convite à reflexão sobre os limites do tédio nosso de cada dia e da necessidade de entorpece-lo com muito mais do que 0,05% de álcool no sangue! Mais uma dose, por favor!!!!

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