Amor, sorrisos e flores renascendo a cada mil lágrimas

Por Ana Lucia Gondim Bastos

Na primeira vez que assisti à gravação de Chico Buarque com neta, Clara Buarque, cantando Dueto, fiquei deveras tocada com a generosidade da dupla em revelar toda cumplicidade que uma história de amor comporta: “Consta nos astros, nos signos, nos búzios/Eu li num anúncio, eu vi no espelho/Tá lá no evangelho, garantem os orixás/Serás o meu amor, serás a minha paz…“. Nessa hora, que eles deslocam nosso olhar do amor romântico, ampliando nossa capacidade de perceber a grandeza do amor que conhecemos no mundo, e com o mundo de gente que faz nossa história, a gente fica tão enriquecido e tão mais potente! Agradeci profundamente ao Chico e à Clara, naquele momento. Como num filme, passaram pela minha cabeça tantos amores que me sustentam: amor de mãe, de pai, de filhas, de irmã e de irmão, de primas e primos, tios e tias, amigos e amigas, alunos e alunas, pacientes e analistas, professores e professoras, avós, sobrinhos e sobrinhas, afilhadas e afilhados… enfim, é tanta gente que dá festa das boas! Aí, além de agradecida ao Chico e à Clara, fiquei agradecida, também, ao primeiro amor de todos: à minha mãe que me deu de presente, à época do nascimento de minha irmã, o livro “Quanto mais gente mais divertido”, e se empenhou, até o fim da vida dela, em me fazer acreditar e a levar a sério essa lição (a outra não menos importante, também título de livro era que “Longe é um lugar que não existe”, mas, essa merece outro texto). O fato é que num dia de julho, mês em que me tornei mãe, ela se foi sem tempo para despedidas. Saímos para um passeio de sábado e voltamos sem ela. Antes, ela me chamou atenção para beleza de pássaros e flores do belo local e pediu que fizéssemos registros fotográficos (outro interesse que fiquei como herança). A estrada que me levou do lindo espaço de meditação budista, onde estávamos, ao hospital, onde tentaríamos salva-la, parecia interminável. Já sem esperança (ou com muito pouca), meu pai, minha filha mais velha e eu tentamos dar conta da experiência de impotência perante à morte, ali naquela estrada que, sabíamos, nos levar ao fim. Mamãe tinha voltado a morar perto da gente há pouco tempo, o que tinha nos trazido muita alegria e, de repente, como em canção de João Gilberto:

Quem acreditou
No amor, no sorriso, na flor
Então sonhou, sonhou
E perdeu a paz
O amor, o sorriso e a flor
Se transformam depressa demais
Quem, no coração
Abrigou a tristeza de ver
Tudo isto se perder

E, na solidão
Procurou um caminho e seguiu
Já descrente de um dia feliz

Bem, ainda bem que Chico e Clara já tinham ampliado meu repertório para dar contorno para aquela confusão de sentimentos e, seguindo a letra de João, eu sabia que era o caminho da dor que ia me revelar, novamente, o caminho do amor. Então, chorei, chorei. Chorei até perder o fôlego várias vezes. Na verdade eu choro até hoje e , cada nova perda, me remete àquela estrada que era pau, era pedra, era o fim do caminho. Mas, a vida é feita de surpresas e o novo sempre irrompe na forma de milagre. Hoje, o caminho do amor me foi, novamente, revelado, e me leva a uma terra boa, de solo fértil, com muitas flores e pássaros como os que mamãe parava o olhar para admirar a beleza e assim me ensinou a fazer. Num fim de dia, num pôr de sol lindo, volto sozinha à estrada que um dia foi um beco sem saída. Mas, agora, conheço bem a quilometragem onde sei estar a saída que me leva a outra estrada, essa de terra, onde encontrarei sorrisos de boas vindas e possibilidades de futuros que me alegram (além dos pássaros e das flores, é claro). Sim, Itamar estava certo! E que fique como sábia lição:

Em caso de dor, ponha gelo
Mude o corte de cabelo
Mude como modelo.
Vá ao cinema, dê um sorriso
Ainda que amarelo
Esqueça seu cotovelo.

Se amargo foi já ter sido
Troque já esse vestido
Troque o padrão do tecido.
Saia do sério, deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido.
A cada mil lágrimas sai um milagre.

Caso de tristeza, vire a mesa
Coma só a sobremesa, coma somente a cereja
Jogue para cima, faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra apenas, viva apenas.
Sendo só fissura ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura.
Faça uma novena, reze um terço
Caia fora do contexto, invente seu endereço.
A cada mil lágrimas sai um milagre

Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal, do sal, do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas, três, dez, cem, mil lágrimas
Sinta o milagre
A cada mil lágrimas sai um milagre

A cada mil lágrimas sai um milagre
A cada milágrimas
A cada mil lágrimas sai um milagre
A cada milágrimas

1 comentário

  1. Algumas lágrimas aqui. Sábia sua mãe – quanto mais gente que nos sustente pela força potente do amor, melhor.
    Você é uma festa, Ana.
    Obrigada pela generosidade de compartilhar sua poesia .

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